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INTROSPECÇÃO, EMPATIA E PSICANÁLISE

 

Um Estudo da Relação entre Método de Observação e Teoria[1]

 

            Os homens e os animais examinam seu ambiente por meio dos órgãos dos sentidos: ouvem, cheiram, vêem e tocam; formam impressões coesivas acerca desse ambiente, recordam essas impressões, comparam-nas e desenvolvem expectativas à base de impressões anteriores. As investigações do homem se tornam cada vez mais consistentes e sistemáticas, o alcance dos órgãos sensoriais se amplia através dos instrumentos (telescópio, microscópio), os fatos observados são integrados em unidades maiores (teorias) por intermédio de pontes de pensamentos conceitual (as quais, por sua vez, não podem ser observadas); e destarte, gradualmente, com passos imperceptíveis, expande-se à investigação científica do mundo externo.

           

            O mundo interno não pode ser observado através dos nossos órgãos sensoriais. Nossos pensamentos, desejos, sentimentos e fantasias não podem ser vistos, cheirados, ouvidos, nem tocados. Não têm existência no espaço físico e, no entanto, são reais e podemos observa-los à medida que ocorrem no tempo: por meio da introspecção em nós mesmos e por meio da empatia (isto é, introspecção vicária), nos outros.

 

            Mas estará correta a diferenciação acima? Será que realmente os pensamentos, desejos, sentimentos e fantasias não têm existência física? Não haveria processos subjacentes que poderiam, por um lado, ser registrados através de recursos físicos altamente apurados e ainda, por outro lado, ser experimentados como pensamentos, sentimentos e fantasias e desejos? O problema antigo e familiar e não pode ser resolvido enquanto for apresentado sob a forma de alternativa de unidade ou dualidade de corpo e mente. A única definição proveitosa é operacional. Falamos de fenômenos físicos quando o ingrediente essencial do nosso método de observação inclui os nossos sentidos; falamos de fenômenos psicológicos quando os ingredientes essenciais da nossa observação são a introspecção e a empatia.

           

            É evidente que as definições precedentes não devem ser compreendidas no estreito sentido de uma operação real que esteja ocorrendo num dado momento, mas no mais amplo sentido da atitude total do observador em direção ao fenômeno que está sendo pesquisado. Assim como planetas que ainda não foram vistos influenciam o curso de outros planetas que estão sob observação direta e os astrônomos podem, dessa forma, apreciar o curso, o tamanho, a magnitude (isto é o brilho) de corpos celestes que ainda não apareceram em seus telescópios; e esses mesmos astrônomos continuam a pensar nas propriedades físicas de cometas que só depois de muitos anos voltarão a aparecer em seu campo de observação, considerações semelhantes também se aplicam no campo psicológico. Em psicanálise, por exemplo, consideramos o Pré-Consciente e o Inconsciente como sendo estruturas psicológicas não só porque os abordamos com intenção introspectiva, nem só porque podemos  eventualmente atingi-los por meio da introspecção, mas também porque consideramos dentro de um enquadramento de experiência observada por introspecção ou potencialmente observada por introspecção.

 

            À medida que os dados da nossa observação vão se organizando e as nossas observações vão se tornando cientificamente sistemáticas, começamos a lidar com uma variedade de conceitos que estão cada vez mais distantes dos fatos observados. Alguns desses conceitos constituem abstrações ou generalizações e estão, por isso, mais ou menos ligados aos fenômenos que podem ser observados, por exemplo, o conceito zoológico “mamífero” é derivado da observação é concreto de uma variedade de animais individual destino: mas um mamífero sozinho não pode ser observado. Mas ou menos o mesmo acontece em psicologia. O conceito de instinto em psicanálise, por exemplo, é assim derivado da observação pó introspecção de inumeráveis experiências, como vai ser demonstrado mais adiante; mas um instinto sozinho não pode ser observado. Outros conceitos, como o da aceleração nas ciências físicas ou o da psicanálise, não se referem diretamente aos fenômenos observados. Mas tais conceitos evidentemente pertencem à estrutura total de suas ciências respectivas porque designam relações entre os dados observados. Observamos corpos físicos no espaço, anotamos suas posições físicas ao longo de um eixo de tempo e assim chegamos ao conceito de aceleração. Observamos introspectivamente pensamentos e fantasias, observamos as condições de seu aparecimento ou desaparecimento e chegamos assim, ao conceito de repressão. 

 

            Mas, será que é sempre verdade que a introspecção e a empatia são constituintes de toda observação psicológica? Não haverá fatos psicológicos que possamos averiguar pela observação não-introspectiva do mundo externo? Vamos considerar um exemplo simples. Vemos uma pessoa que é extraordinariamente alta. É indiscutível que o tamanho incomum dessa pessoa é um fato importante para nossa avaliação psicológica – ma sem a introspecção e a empatia o tamanho da pessoa continua simplesmente um atributo físico. Só quando nos imaginamos no lugar da pessoa, só quando por introspecção vicária começamos a reviver experiências íntimas nas quais tínhamos sido incomuns ou conspícuos, só então começaremos a apreciar a significação que a altura incomum possa ter para essa pessoa e, só então, teremos observado um fato psicológico. Considerações semelhantes também se aplicam a propósito do conceito psicológico de ação. Se observarmos apenas os aspectos físicos sem introspecção e empatia, estaremos observando não o fato psicológico de uma ação, mas apenas o fato físico de movimentos. Podemos medir uma elevação de sobrancelhas até à mínima fração de um centímetro, no entanto, só por meio da introspecção e da empatia poderemos compreender os matizes de significado de assombro e desaprovação contidos numa elevação de sobrancelhas. Mas uma ação não poderia ser compreendida sem recorrer-se à empatia, simplesmente considerando-se seu curso visível e seus resultados visíveis? Ainda aqui a resposta é negativa. O fato puro e simples de vermos um tipo de movimento que conduz a um fim específico, por si só não define um ato psicológico. O acontecimento em que uma pedra se solta de um telhado e mata um homem não é uma ação no sentido psicológico por da causa da ausência de uma intenção ou motivo com que possamos empatizar. E não obstante o fato de reconhecermos que há determinantes inconscientes a muitos acontecimentos acidentais, podemos distinguir corretamente as conseqüências acidentais das nossas atividades, de ações propositais. Um homem deixa cair uma pedra, a pedra cai e mata outro homem. Se houver uma intenção consciente ou inconsciente com a qual possamos empatizar, falaremos de um ato psicológico; se essa intenção não estiver presente, pensaremos numa cadeia de causa-e-efeito de eventos físicos. Por outro lado, se fosse possível descrever, termos de física e bioquímica, a maneira pela qual a onda sonora de certas palavras dita por A mobilizaram certos padrões eletroquímicos no cérebro de B, esta descrição ainda não conteria o fato psicológico apresentado pela afirmação de que A enfureceu B. Só um fenômeno que possamos tentar observar por introspecção ou por empatia com a introspecção alheia pode ser chamado psicológico. Um fenômeno é “somático”, “comportamental” ou “social” se nossos métodos de observação não incluírem predominantemente a introspecção e a empatia.

 

            Podemos assim repetir a primeira definição sob a forma de uma afirmação explícita: designamos um fenômeno como sendo mental, psíquico ou psicológico se o nosso modo de observação incluir a introspecção e a empatia  como constituintes essenciais. O termo “essencial”, neste contexto, expressa o fato que a introspecção ou a empatia nunca poderão estar ausentes da observação psicológica e que podem estar presentes sozinhas. As considerações apresentadas anteriormente demonstraram a primeira metade desta afirmação. Para demonstrar a segunda metade (de que a introspecção e a empatia podem estar presentes sozinhas na observação do material psicológico) podemos voltar-nos para a psicanálise. Aqui temos que considerar, antes de qualquer coisa, a objeção que pode ser levantada por alguns de que o principal instrumento da observação psicanalítica não é a introspecção, mas o exame pelo analista de um tipo de comportamento do paciente: a livre associação. No entanto, um grande corpo de fatos clínico foi descoberto por meio de auto-análise e um sistema de abstrações teóricas foi desenvolvido a partir desses fatos, por exemplo em “A Interpretação dos Sonhos”, de Freud. Na situação analítica habitual, também o analista é testemunha da auto-observação introspectiva do analisando. É verdade que os insights psicológicos do analista freqüentemente vêm adiante da compreensão que o analisando pode ter de si mesmo. Mas esses insights psicológicos são resultado da habilidade introspectiva treinada que o analista emprega na extensão da introspecção (introspecção vicária) que é chamada empatia.

           

            É claro que estas considerações não implicam em que a introspecção e a empatia sejam os únicos ingredientes da observação psicanalítica. Na psicanálise, como em todas as outras formas de observação psicológica, introspecção e empatia, os constituintes essenciais da observação, estão freqüentemente presas a outros métodos de observação. Mas o fato final e decisivo da observação é introspectivo ou empático. E podemos, além disso, demonstrar que, no caso da auto-análise, a introspecção está presente.

 

            Poderia ser proveitoso, neste ponto, estudar o emprego da empatia fora da psicologia cientifica. Na vida diária, as nossas atitudes não são cientificamente sistemáticas e tendemos a ver os fenômenos como mais ou menos psicológicos ou mentais, dependendo da nossa maior ou menor capacidade de empatizar com o objeto da nossa observação. A nossa compreensão psicológica é mais facilmente atingida quando observamos pessoas do nosso próprio ambiente cultural. Seus movimentos, seu comportamento verbal, seus desejos e sensibilidades são semelhantes aos nossos e somos capazes de empatizar com eles à base de indícios que podem parecer insignificantes a pessoas de um ambiente cultural diferente. Mas mesmo quando observamos pessoas de uma cultura diferente, cuja experiência é diversa da nossa, habitualmente acreditamos que seremos capazes de compreende-las psicologicamente através da descoberta de alguma experiência comum com que possamos empatizar. Mas ou menos a mesma coisa ocorre em relação aos animais: quando um cachorro saúda seu dono após uma separação, sabemos que há um denominador comum entre nossas experiências e o que o cachorro experimenta no fim de uma separação de um “tu” amado; e podemos começar a pensar em termos psicológicos, mesmo que estejamos inclinados a insistir em que as diferenças entre experiência humana e experiência animal devem ser muito grandes. Mas dificilmente alguém falaria numa psicologia vegetal. É verdade que algum observador entusiasta de flores pode ver no movimento das plantas que se voltam na direção ao sol e do calor algo com que consegue empatizar, um impulso interno, um anseio  ou um desejo – mas isso vai ser mais no sentido de alegoria ou poesia porque não podemos conceder aos vegetais a capacidade de autoconsciência rudimentar (como concedemos a alguns animais). Mas ainda há outras gradações. Observamos a água correndo morro-abaixo, procurando o caminho mais curto, evitando obstáculos e podemos mesmo descrever estes fatos em termos antropomórficos (correndo, procurando, evitando); mas ainda assim estamos falando de uma psicologia de corpos inanimados – muito menos de uma psicologia de vegetais[2] .

 

            Assim, a introspecção e a empatia representam um papel em toda compreensão psicológica; no entanto, Breuer e Freud foram pioneiros por excelência no emprego científico da introspecção e da empatia. A ênfase nos aperfeiçoamentos específicos da introspecção (isto é, livre associação e análise de resistências), a descoberta que marcou época de um tipo de experiência interna até então desconhecida e que só emerge com o auxilio dessas técnicas especificas de introspecção (isto é, a descoberta do inconsciente) e o alcance da nova compreensão de fenômenos psicológicos normais e anormais, tenderam a obscurecer o fato de que o primeiro passo foi a introspecção do emprego consistente da introspecção e da empatia, como instrumentos de observação de uma nova ciência. A livre associação e a análise de resistências, as técnicas fundamentais da psicanálise liberaram a observação introspectiva de distorções previamente não-reconhecidas (racionalizações). Assim, não há dúvidas quanto a que a introdução da livre associação e da análise de resistências (com o conseqüente reconhecimento das influências falseadoras de um inconsciente ativo) determina especificamente o valor da observação psicanalítica. Mas o reconhecimento desse valor não contradiz o reconhecimento de que a livre associação e a análise das resistências devem ser consideradas instrumentos auxiliares, empregados a serviço do método de observação introspectivo e empático.

 

            Com a conclusão dessas observações introdutórias, estamos prontos agora para nos voltarmos para o corpo principal do presente estudo. O estudo que se segue não está primariamente ligado às múltiplas experiências de analisando e analista, nem tampouco tem por objetivo a elucidação da introspecção e da empatia dos pontos de vista dinâmico e genético. De agora em diante, tomaremos como certo por antecipação que a introspecção e a empatia são os constituintes essenciais dos descobrimentos psicanalíticos e vamos tentar demonstrar como este método de observação define os conteúdos e limites do campo observado. E porque os conteúdos e limites do campo, por sua vez, determinam as teorias de uma ciência empírica, também será nossa tarefa neste estudo demonstrar a ligação entre a introspecção e a empatia psicanalítica, particularmente nas áreas em que a desatenção a essa conexão levou a inexatidões, omissões ou erros.


 

RESISTÊNCIAS CONTRA A INSTROPECÇÃO E A EMPATIA

 

            As resistências contra a livre associação são adequadamente consideradas como conseqüência da função de defesa da mente. O paciente se opõe à livre associação por meio dos conteúdos inconscientes e de seus derivados; e há uma resistência contra o processo de análise que se ocupa da significação de fantasias masturbatórias proibidas, agressões, etc. Mas parece haver uma resistência mais geral contra o método psicanalítico e que se expressa de modo altamente racionalizado: uma resistência contra a introspecção. Talvez tenhamos descuidado do exame do emprego cientifico da introspecção (e da empatia), talvez tenhamos deixado de experimenta-las ou aperfeiçoa-las porque ainda relutamos em reconhecê-la francamente como o nosso método de observação. Parece que nos envergonhamos da introspecção e não queremos menciona-lo diretamente; e , no entanto, com todas as suas falhas, a introspecção abriu caminho para grandes descobertas. Deixando de lado as causas sócio-culturamente determinadas da nossa hesitação a propósito da introspecção (exemplificadas em chavões como mística, ioga, oriental, não-ocidental), ainda não conseguimos identificar a razão subjacente para o preconceito contra o reconhecimento do método de observação que deu tais resultados. Talvez o medo do desamparo através do aumento da tensão seja o terror que provoca a omissão defensiva do fato de que a introspecção é um elemento tão importante nas descobertas psicanalíticas. Estamos habituados a um contínuo escoamento de tensão através da ação e  nos dispomos a aceitar o pensamento somente como um intermediário para a atividade, como uma ação postergada, ou como um planejamento ou um ato tentativo. A introspecção parece opor-se à direção da corrente por meio da qual alcançamos o alívio da tensão e pode, portanto, acrescentar o pavor geral da passividade e do aumento da tensão aos medos mais específicos que se criam quando os conteúdos reprimidos estão prestes a revelar-se. É verdade que a livre associação em psicanálise não corresponde, nesse sentido, aos nossos processos habituais de pensamento. De uma maneira geral, pensar é um “tipo de atuação experimental, acompanhada pelo deslocamento de uma quantidade relativamente pequena de catexias” (Freud, 1911a. p. 221). Pode-se dizer que a terapia psicanalítica no todo prepara para a (liberdade de) ação; mas a livre associação em si não é preparatória para a ação, o que faz é predispor para os rearranjos estruturais através da maior tolerância à tensão.

 

            Freqüentemente os pacientes expressam, nas fases iniciais da terapia, preocupações acerca da duração da análise e do número de sessões, justificando isso pelo sacrifício de tempo e dinheiro que o tratamento exige. Entretanto, tem-se a impressão de que, pelo menos em alguns casos, essas queixas encobrem o medo mais profundo da inatividade diante da tensão crescente; em outras palavras, um medo da inversão prolongada do fluxo de energia por meio da introspecção. E talvez seja um desconforto similar por parte do analista o que nos tenha impedido, nas nossas experiências com o método analítico, de pesquisar os resultados de prolongados períodos de introspecção, por exemplo, a afetividade de sessões analíticas mais longas.

 

            É claro que a introspecção pode também constituir uma fuga à realidade. Em suas formas mais patológicas, como em alguns devaneios artísticos de esquizofrênicos, a introspecção sucumbe diante do principio do prazer e torna-se uma aceitação passiva de fantasias. As formas racionalizadas de introspecção dos cultos místicos e da psicologia mística pseudocientifica estão mais sob o controle da parte do ego que realiza a introspecção, embora ainda ao sabor das oscilações do princípio do prazer. Entretanto, o fato de que possa abusar da introspecção não nos deve enganar quanto ao seu valor como instrumento cientifico. De mais a mais, a pesquisa as ciências físicas não-introspectivas pode ver-se envolvida no serviço de um principio do prazer não-modificado se o cientista empregar a atividade cientifica para propósitos patológicos. Em psicanálise, a introspecção não é uma fuga passiva à realidade, mas é, na sua melhor forma, ativa, pesquisadora e empreendedora. É tão animada pelo desejo de aprofundar e expandir o campo do nosso conhecimento quanto o é a melhor das ciências físicas.

 

AS ORGANIZAÇÕES MENTAIS PRIMITIVAS

 

            De fato não há somente resistências irracionais opostas à introspecção, mas também nos defrontamos com limitações realísticas. Por exemplo, algumas vezes ouvimos a afirmação crítica de que as descrições ou as teorias de determinado autor são antropomórficas, ou são adultomórficas ou algo do  gênero. Dizendo na linguagem das presentes considerações, esses termos críticos implicam em que ou os processos empáticos do observador não foram manejados com discrição ou que o autor em questão empatizou erradamente. Não pode haver dúvidas quanto a que a confiabilidade da empatia decresce à medida que aumenta a diferença entre o observador e o observado. A psicanálise é geneticamente orientada e vê a experiência humana como uma continuidade longitudinal de organizações mentais de complexidade e maturidade variáveis, etc. Assim, os estágios mais antigos do desenvolvimento mental constituem um desafio especial à capacidade de empatizar conosco mesmos, isto é, com nossas próprias organizações mentais anteriores. (Estas considerações, é claro, não se aplicam somente à abordagem longitudinal, mas também à abordagem de seção transversal longitudinal, mas também à abordagem de seção transversal, por exemplo quando falamos de profundidade psicológica e de regressões psicológicas durante o sono, a neurose, a fadiga, os estados tensão, etc.). Que espécie de conceito deveríamos utilizar ao descrever processos psicológicos primitivos, precoces ou profundos? Na síndrome freudiana das neuroses reais, por exemplo foi decisivo, do ponto de vista operacional que a introspecção e a análise persistente (mesmo sob a forma livre associação e análise de resistências) não tivesse conseguido revelar qualquer conteúdo psicológico além da ansiedade nas neuroses de ansiedades ou além de fadiga e dores vagas na neurastenia (Freud, 1898). Freud deve ter considerado as diversas fantasias que ocasionalmente encontrava como tendo sido construídas secundariamente a esses sintomas e como racionalização desses sintomas.  A  ausência de achados psicológicos levou Freud à formulação de que as neuroses reais são expressão direta de perturbações orgânicas – em outras palavras, de uma condição cuja pesquisa parece ser mais proveitosa por métodos não-introspectivos de observação, por exemplo, por meios bioquímicos. Considerações semelhantes se aplicam a entidades psicológicas como a perturbação neurótica [3], a neurose vegetativa (Alexander, 1943) e a neurose de órgão (Fenichel, 1945), bem como ao artifício de diferenciar uma fase funcional primária do desenvolvimento  mental (Glover, 1950). Analogamente, não deveríamos pretender atingir uma compreensão exata do conteúdo psicológico das fases mais precoces do desenvolvimento mental, mas ao discutir essas fases precoces, deveríamos evitar expressões que se referem a fenômenos similares da experiência posterior. Portanto, deveríamos ficar satisfeitos com aproximações empáticas imprecisas e deveríamos falar, por exemplo, em tensão em vez de desejo, em diminuição de tensão em vez de satisfação de desejo, em condensações e formações de compromissos em vez de solução de problemas. Os artifícios operacionais que algumas vezes são empregados na discussão dos estados psicológicos precoces não mais difíceis de perceber do que aqueles equívocos de terminologia. Assim, em vez de tentar-se estender uma forma rudimentar de introspecção empática até um estado mental precoce, oferece-se a descrição de uma situação social – por exemplo, a descrição da relação entre mãe e filho. É claro que são indispensáveis a pesquisa e a descrição das interações precoces entre mãe e filho; mas é preciso não esquecer que ao fazê-lo, estamos lidando com uma forma de psicologia social e que, portanto, estamos movendo-nos dentro de um esquema de referência que deve ser comparado, mas não igualado aos resultados da psicologia introspectiva.

            Portanto, é preciso tomar cuidado para não confundir e não misturar teorias baseadas em observações realizadas por meio do método introspectivo, com teorias baseadas no método de observação, por exemplo, do psicológico social ou do biólogo. O riacho corre morro-abaixo e , evitando as pedras que encontra em seu caminho, procura o trajeto mais curto até o rio – e assim se resolve um problema de adaptação entre a água e seu ambiente. Uma mulher casada está em conflito acerca da tentação à infidelidade desenvolve uma cegueira histérica – e mais uma vez pode-se dizer que foi resolvido um problema de adaptação. Uma outra mulher, em circunstâncias semelhantes, decide que não quer mais ser tentada; ela também não quer mais ver o homem tentador e resolve voltar para casa – e outra vez fica resolvido o problema de adaptação. O psicológico social pode tentar diferenciar esses processos de adaptação comparando as diversas complexidades dos meios empregados na solução – uma diferenciação nada fácil á vista dos computadores (“cérebros” eletrônicos) da nossa era. Qualquer que seja a solução do psicológico social ou do biólogo, estará evidentemente em desacordo com a do psicanalista. Este, ao empregar a introspecção e a empatia, não distingue os mecanismos por sua eficiência ou ineficiência nem por sua simplicidade ou complexidade. O psicanalista, por meio da empatia com as experiências de outra pessoa, comporá os mecanismos avaliando a distância relativa que há entre as diversas atividades mentais e o self que realiza a introspecção. Alguns processos psicológicos (tensão, alívio de tensão do recém-nascido) estão quase além do alcance da empatia e pode-se dizer que as adaptações que ocorrem estão mais próximas do movimento da água que interage com as pedras e a gravidade. Outros processos, se bem que um pouco mais próximos do observador empático do que os precedentes, estão ainda muito distantes do ego que observa a si mesmo: as formações de compromisso, as condensações, os deslocamentos e a superdeterminação a que chamamos processos primários (por exemplo, na formação do sistema neurótico); e finalmente, encontramos os processos psicológicos que estão mais próximos da nossa introspecção e da nossa empatia: os processos secundários de pensamento lógico, de solução de problemas e de ação libertadora – a faculdade de escolha e decisão.

 

CONFLITO ENDOPSÍQUICO E CONFLITO INTERPESSOAL

 

            Em seguida vamos examinar a posição dos conceitos do conflito endopsíquico e de conflito interpessoal dentro do arcabouço da teoria psicanalítica, especialmente a propósito da convicção freqüentemente expressada de que a psicanálise não é “bastante interpessoal” ou de que emprega uma estrutura de referência unilateral em vez da matriz social. Estas opiniões deixam de levar em conta que o constituinte essencial da observação psicanalítica é a introspecção. Portanto, é preciso que definamos a significação psicanalítica do termo “interpessoal” como indicando uma experiência interpessoal aberta à auto-observação introspectiva; assim é diferente da significação dos termos relacionamento interpessoal, interação, transação, etc., empregados pelos psicológicos sociais, dentre outros.

 

            A investigação inicial de Freud estava dirigida para a pesquisa introspectiva e empática das neuroses. Seus esforços foram recompensados com duas grandes descobertas: o inconsciente e o fenômeno da transferência, isto é, a influência particular exercida pelo inconsciente sobre a parte do psiquismo mais acessível à introspecção. A introspecção persistente, nas neuroses transferenciais, leva ao reconhecimento de uma luta interna entre impulsos: o conflito estrutural. O analista, enquanto figura transferencial, não é experimentado no esquema de um relacionamento interpessoal  mas como o portador das estruturas endopsíquicas inconscientes do analisando (recordações inconscientes). (“Conceitos Mentais Básicos”, Glover, 1947)[4]. Por exemplo, um paciente relata despreocupadamente que deixou de pagar a passagem do ônibus na vinda para a sessão. Ele “notou” que o analista estava singularmente de cara feia quando o comprimentou. O analista, como figura transferencial (conforme é revelado pela introspecção persistente com a análise das resistências), é uma expressão de forças do supergo do analisando (a imago paterna inconsciente).

 

            Entretanto, o alcance da pesquisa psicanalítica foi crescendo gradualmente e logo começou a incluir as psicoses. E assim apresentou-se uma nova dificuldade ao analista: empatizar com as experiências das organizações mentais primitivas, com as experiências  do psiquismo pré-estrutural. As duas primeiras grandes descobertas no reino das psicoses foram (1) a compreensão de Freud da significação da hipocondria psicótica (“Introdução ao Narcisismo”, 1914b) e Tausk (1919) de que o delírio esquizofrênico de estar sendo influenciado por uma maquina era a revivescência de uma forma primitiva de self; uma regressão às dolorosas e angustiadas experiências que se seguem à perda do contato com uma experiência de “tu”. Assim, a introspecção persistente nas perturbações narcísicas e nos estados fronteiriços levou ao reconhecimento de um psiquismo não-estruturado que luta para manter o contato comum com um objeto arcaico ou para conservar-se tenuemente separado desse objeto[5]. Aqui, o analista não é a tela para a projeção da estrutura interna (transferência), mas a continuação direta de uma realidade precoce que foi distante demais, rejeitadora demais ou infidedigna demais para ser transformada em estruturas psíquicas sólidas. Portanto, o analista é vivenciado introspectivamente dentro do esquema de uma relação interpessoal arcaica. Ele é o antigo objeto com o qual o analisando tenta manter contato, do qual o analisando tenta separar sua própria identidade e do qual o analisando tenta   retirar um pouco de estrutura interna. Por exemplo, um paciente esquizofrênico chega a sessão analítica num estado de ânimo frio e distante. Num sonho da noite precedente, ele estava num campo estéril, coberto de neve; uma mulher lhe oferece o seio, mas ele descobre que esse seio é uma borracha. O trabalho que se segue mostra que a frieza emocional do paciente e seu sonho constituem a reação a uma rejeição aparentemente mínima do paciente pelo analista, mas que na realidade foi muito significativa. É claro que na análise das neuroses transferenciais também ocorrem reações ás rejeições realísticas do analista e que o reconhecimento e a compreensão dessas reações têm importância tática. Mas, análise das psicoses e dos estados fronteiriços, os conflitos interpessoais arcaicos ocupam um lugar que corresponde à importância do conflito estrutural nas neuroses. As mesmas considerações se aplicam, mutatis mutandis , aos conflitos estruturais encontradas nas psicoses.

 

            Não podemos encerrar o tópico sobre conflito endopsíquico e interpessoal sem fazer mais alguns comentários rápidos acerca da transferência. A definição básica de transferência de Freud (“a Interpretação dos sonhos” – 1900 a) foi resultado de uma formação inequívoca de conceito: a transferência é influencia do inconsciente sobre o pré-consciente através de uma barreira de repressão existente (ainda que enfraquecida). Os sonhos, os sintomas e os aspectos da percepção que o analisando tem do analista são as formas mais importantes de manifestação da transferência. O emprego indiscriminado que ora se faz dos termos transferência e contratransferência (muitas vezes indicando o relacionamento interpessoal específico no sentido da psicologia social) se origina na discordância desapercebida quanto ao método de operação sobre o qual a estrutura teórica deveria estar baseada. Poderemos conservar a grande vantagem da coerência de modo de operação, sem ficar paralisados pelo modelo mental mais grosseiro com que Freud trabalhava em 1900, se ajustarmos o conceito primitivo de transferência ao seu diagrama estrutural de 1923 e se o definirmos além disso com vistas à autonomia do ego (Hartmann, 1939) A experiência transferencial do objeto na situação terapêutica dessa forma reteria sua significação original de combinação de impulsos objetais infantis reprimidos com aspectos do analista (insignificantes na realidade presente). Estaria, assim, claramente distinguida de duas outras experiências: (a) dos impulsos em direção a objetos que embora emergindo da profundidade, não atravessam a barreira da repressão (cf. o diagrama de Freud em “O ego e o Id”: a barreira de repressão separa apenas uma pequena parte entre o ego e o id); e (b) dos impulsos objetais do ego que, embora originalmente transferenciais, mas tarde romperam as ligações com o reprimido e se tornaram escolhas de objetos autônomas do ego. É importante reconhecer que nos dois casos as escolhas de objetos se originam em parte no passado, isto é, a escolha de objeto de vida posterior é modelada de acordo com os moldes da infância. Mas se é verdade que todas as transferências são repetições, nem todas as repetições não transferenciais.

 

            Pela abordagem histórica não-introspectiva não é possível distinguir entre influencias do passado que afetaram o crescimento do aparelho mental e influências atuais de um remanescente do passado que ainda está em sua existência real, isto é, o inconsciente reprimido. Mas através da introspecção persistente cientifica seremos capazes de distinguir entre escolhas de objetos não-transferênciais moldadas conforme os modelos da infância (isto é, uma parte daquilo que muitas vezes é chamado erroneamente de “transferência” positiva) e verdadeiras transferências. Estas últimas podem ser desfeitas pela introspecção persistente; aquelas primeiras, no entanto, estão situadas fora da esfera do conflito estrutural e não são diretamente afetadas pela introspecção psicanalítica.

 

DEPENDÊNCIA

 

            Alguns conceitos empregados pela psicanálise não são abstrações baseadas na observação introspectiva nem na introspecção empática, mas são derivados de dados obtidos por outros métodos de observação. É preciso comparar alguns conceitos com abstrações teóricas baseadas em observações psicanalíticas; mas esses conceitos não são idênticos a estas abstrações.

 

            Vamos considerar, por exemplo, que a importância da sexualidade infantil em geral e do Complexo de Édipo em particular esteja relacionada com uma dependência prolongada, biologicamente necessitada do bebê, ou mesmo que seja parte dessa dependência. Esta é uma hipótese psicanalítica? Num sentido geral, é claro que a resposta é sim porque sabemos que a hipótese em questão não poderia sequer ter sido formulada nem antes introspectiva da experiência fálica, anal e erótico-anal nem antes do estabelecimento das paixões edipianas na transferência. Entretanto, considerações mais exatas vão demonstrar que nem todos os conceitos utilizados nessa hipótese podem, sem modificações, ser tratados como se tivessem sido retirados das observações introspectivas e empáticas. Os problemas dos instintos e da sexualidade serão considerados mais adiante; trataremos aqui do conceito da dependência.

 

            O termo dependência pode ser empregado para exprimir duas significações distintas que, desordenadamente, muitas vezes são relacionadas entre si, embora nem sempre. O primeiro significado se refere a um relacionamento entre dois organismos (biologia), ou duas unidades sociais (sociologia). O observador biológico pode afirmar que diversos mamíferos recém-nascidos são dependentes (para a sobrevivência) dos cuidados que recebem dos adultos da espécie que os criam. É possível fazer juízos semelhantes a propósito da dependência quanto ao relacionamento entre homens adultos. Na nossa civilização complexa e altamente especializada, cada membro da sociedade desenvolve apenas determinadas habilidades e é, portanto, dependente do todo da sociedade (do somatório das habilidades dos outros) para sua existência como ele a conhece e, é claro, para sua própria sobrevivência biológica. Aparte das significações biológica e sociológica do termo dependência encontra um conceito psicológico que o mesmo nome e que tem sido amplamente utilizado nas nossas formulações psicodinâmicas. Dizemos que alguns pacientes ou têm problemas de dependência ou que desenvolvem problemas de dependência no curso da psicanálise. Ou falamos de personalidades orais dependentes e concluímos que sua dependência oral contribui decisivamente para o desejo que têm de perpetuar o relacionamento com o analista. Como estamos lidando aqui com um conceito psicanalítico de dependência, é preciso supor que o obtivemos por meio da observação psicanalítica de nossos pacientes e que o termo constitui alguma generalização ou abstração a propósito do estado mental do analisando. E de fato este é o caso, muitas das vezes, em que dizemos que um paciente está em conflito quanto aos seus impulsos de dependência ou, numa formulação estrutural, que esse paciente reprimiu seus impulsos de dependência. Uma semelhante formulação parece inquestionável, pois aparentemente estamos apenas aplicando o conceito demonstrado de regressão. No entanto, fizemos tacitamente uma suposição que precisamos isolar antes de podermos examinar a plausibilidade da formulação precedente. Regressão, como termo psicanalítico, indica o retorno a  um estado psicológico mais antigo. Portanto, nosso problema não se refere ao fato indiscutível de que um bebê é dependente de sua mãe (no sentido biológico e não sociológico) mas antes à desconcertante questão de saber se o estado mental do bebê corresponde grosseiramente àquilo que encontramos quando descobrimos impulsos reprimidos de dependência do analisando adulto. Para demonstrar que não se pode confiar em tais esforços, podemos considerar a hipótese oposta e afirmar que a auto-consciência rudimentar do bebê saudável no seio deveria antes ser comparada com o estado emocional de um adulto que esteja totalmente absorvido por uma atividade que para ele tenha a mais extrema importância. Assim como, por exemplo, o corredor no último trecho da corrida de cem metros rasos, o concertista virtuoso no ponto culminante da cadência ou o amante no clímax da relação sexual. Portanto, a suposição de que os estados de dependência no adulto constituem uma regressão a uma gesthalt psicológica primitiva que não pode ser mais dissecada pela análise é contrária à nossa compreensão empática das crianças saudáveis.

 

            É claro que algumas vezes pode ser útil ao psicológico empregar descobertas ou princípios biológicos a fim de orientar suas expectativas quanto ao que deve observar. Mas o teste final é a observação psicológica em si; e é errôneo extrapolar de princípios biológicos a interpretação de um estado mental especifico, ainda mais se esses princípios contradizem os nossos achados psicológicos. Desta forma, veremos que o agarrar-se temeroso ou mesmo teimoso, o segurar-se, a resistência contra deixar-se andar que encontramos em alguns dos nossos pacientes adultos não é uma repetição de uma fase normal do desenvolvimento psicológico, isto é, não é um regressão ao estado mental da criança razoavelmente normal, filha de pais razoavelmente normais. As reações de dependência nos adultos, se são regressões a situações da infância, não se referem a um retorno à fase oral normal do desenvolvimento, mas à patologia da infância e freqüentemente a fase da infância mais tardia. São, por exemplo, reação a experiências especifica de rejeição, isto é, complicadas misturas de raiva e medo da retaliação. Ou então protegem o paciente (por exemplo) (contra o aparecimento de culpa ou ansiedade associada com um conflito estrutural oculto) pelo ato de agarra-se ao terapeuta que se tornou o portador onipotentemente benigno das fantasias narcísicas projetadas.

 

            Portanto, devemos também opor-nos à tendência a atribuir a dependência psicológica quase que exclusivamente à oralidade. Não há duvidas quanto a que essa associação realmente existe em alguns casos. Mas a observação empática que permanecer desembaraçada de expectativas biológicas ficará aberta ao reconhecimento de que uma grande variedade de instintos pode contribuir para a criação de um estado de Horigkeit (isto é, servidão) ao terapeuta, particularmente se forem mantidos num estado de semi-insatisfação (abstinência psicanalítica incompleta – e quando, por acaso, é completa?). E em portanto, o agarrar-se insistentemente que caracteriza o estado psicológico em questão, não é a associação com um instinto em particular.

 

            Talvez o principio psicológico mais genérico que se poderia evocar para explicar alguns desses estados seja a resistência à mudança (“a adesividade da libido”), mas esse ato de voltar-se para esta explicação, que é a mais geral de todas, só deveria ocorrer depois que todas as outras possibilidades tivessem sido esgotadas ou então se houvesse evidências psicológicas diretas desse fator num caso particular. O episódio seguinte me foi relatado recentemente por um homem de trinta e cinco anos e talvez possa ser explicado nesses termos. Ele fora um dos trinta sobreviventes de um campo de concentração no qual, no curso dos anos em que estivera preso cerca de cem mil pessoas tenham sido mortas. Quando o avanço das tropas russas se tornou ameaçador, os guardas nazistas abandonaram o campo e os trintas companheiros ficaram livres. Embora estivessem numa condição física passável, levaram quase quatro longos dias para se decidirem a sair.

 

            O fenômeno da dependência deve ser visto ainda de maneira diferente em analisandos com estrutura psicológica deficiente. Por exemplo, alguns adictos não conseguiram adquirir a capacidade de tranqüilizar-se ou de dormir; não foram capazes de transformar em faculdade endopsíquica (estrutura) a experiência precoce de ser tranqüilizado ou de ser posto para dormir. Estes adictos, portanto, têm que se apoiar nas drogas não como substitutos de relações objetais, como substitutos de estruturas psicológicas. Se estes pacientes estão em psicoterapia, pode-se dizer que se tornam adictos ao psicoterapeuta ou ao procedimento terapêutico. Mas a adição que mostram não deve ser confundida com transferência: o terapeuta não é uma tela para a projeção de estruturas psicológicas existentes; ele é um substituto dessas estruturas. Uma vez que a estrutura psicológica é necessária, o paciente agora realmente precisa de apoio, da tranqüilização do terapeuta. Sua dependência não pode ser analisada nem desfeita pelo insight; tem que ser identificada e reconhecida. De faro, é uma experiência clinica o fato de que a tarefa psicanalítica mais importante em tais casos é a análise da negação da necessidade real; o paciente tem inicialmente que aprender a substituir  um conjunto de fantasias grandiosas inconscientes que são mantidas com o auxílio do isolamento social por ser tão dolorosa para ele a aceitação da realidade de ser dependente.

 

SEXUALIDADE, AGRESSÃO, INSTINTOS

 

            O conceito psicanalítico de sexualidade levou a muita confusão e discussão. A quantidade sexual de uma experiência não é adequadamente definida pelo conteúdo da experiência, nem pela zona corporal (zona erotogênica). Para um adolescente, olhar as ilustrações dos livros médicos pode ser uma experiência sexual. Para o estudante de medicina, não o é. Nem tampouco podemos definir o conceito psicológico de sexualidade por referencia a substâncias bioquímicas específicas (por exemplo, hormônios). Se o bioquímico  pudesse demonstrar, por exemplo, que a superprodução de certos hormônios sexuais contribui para o crescimento de certos tumores malignos, isso não implicaria necessariamente em que esses tumores fossem o resultado dos desejos sexuais pré-conscientes ou inconscientes do paciente. Mas o psicólogo pode tirar seus indícios de tais descobertas bioquímicas. Por exemplo, se os hormônios que habitualmente estão envolvidos na gravidez vierem a ser descobertos na etiologia do câncer, nossa pesquisa psicológica pode voltar-se para a personalidade pré-consciente para indagar se tais pessoas têm desejos insatisfeitos crônicos de gravidez. Mas a prova psicológica final para a existência factual de semelhantes desejos deverá ser a sua descoberta empática e introspectiva. E claro que se aplicam considerações semelhantes, mutatis mutandis, aos indícios que o bioquímico pode retirar da psicologia profunda.

 

            Os analistas não têm insistido bastante em que a qualidade sexual de uma experiência não pode ser mais definida. E verdade que os analistas compreendem que quando dizemos “sexuais”, queremos dizer algo que é muito amplo do que a sexualidade genital de que a experiência sexual pré-genital inclui processos sexuais do pensamento, a locomoção sexual, etc. Ainda mais, é instrutivo considerar as observações meio-sérias, meio-jocosas de Freud (1916-1917) acerca da equação “sexual e o que é impróprio” (p.303) e a observação novamente brincalhona de que “de fato, no todo, quando pensamos nisso, não chegamos a ficar embaraçados quanto ao que as pessoas chamam de sexual” (p.304). A experiência sexual pré-genital da infância e a experiência sexual do adulto (seja nos jogos prévios, nas perversões ou no coito) têm assim em comum uma qualidade que não pode ser mais definida e que sabemos ser sexual, seja pela experiência direta, seja depois de prolongada e persistente introspecção e remoção dos obstáculos internos à introspecção (análise das resistências).

 

            E podemos, portanto, dizer que para o bebê e para a criança, uma grande quantidade de experiências tem a qualidade que os adultos conhecem bem em sua vida sexual; assim, nossa vida sexual nos provê de um remanescente de uma experiência que era, no início do nosso desenvolvimento psicológico, muito mais difundido. De acordo com Freud (1921, p.91), o termo foi escolhido “a potiori”, isto é, da mais bem conhecida, dessas experiências em outras palavras  um nome que vai da maneira mais indiscutível, evocar em nós a espécie exata de significação. Não haveria tantos motivos para insistir no termo “sexual” se sua significação fosse biológica. A atitude de Freud de recusar-se a abandona-lo foi a única maneira de salvaguardar a essência de sua significação psicológica. Termos como “força vital” e “energia vital” não conduzem a um reconhecimento inconfundível de uma modalidade primária rejeitada de experiência[6].

 

            De maneira análoga, muita coisa fica esclarecida se admitimos que o termo psicanalítico “instinto” é derivado da investigação introspectiva da experiência interna. As experiências podem ter as qualidades de instintividade em diversos graus (de querer, de desejar ou de empenhar-se). Então, um instinto é uma abstração de inumeráveis experiências internas; indica uma qualidade psicológica cuja análise não pode ser levada adiante pela introspecção; é o denominador comum dos impulsos sexuais e agressivos.

 

            As hipóteses de Freud acerca do narcisismo primário e do masoquismo primário também estão dentro da estrutura teórica da psicologia introspectiva. Ele observou os fatos clínicos do narcisismo e do masoquismo e postulou que constituíam a revivescência de formas precoces (teóricas) de experiências (potenciais) sexuais e agressivas às quais as formas posteriores (narcisismo clínico, masoquismo clínico) retornaram em resposta às tensões ambientais. Mas a suposição de  um instinto de vida e de um instinto de morte, paralelamente à teoria do narcisismo primário e do masoquismo primário, constitui um tipo inteiramente diferente de formação de teoria. Os conceitos de Eros e Thanatos não pertencem à teoria psicológica baseada nos métodos de observação de introspecção e empatia, mas a uma teoria biológica que deve estar assentada em outros métodos de observação. É claro que o biólogo é livre para tomar quaisquer indícios úteis que possa encontrar em psicologia; nas suas teorias devem basear-se na observação biológica e na evidência biológica (Hartman et al., 1949). Por outro lado, a aplicação dos métodos da psicologia introspectiva a toda matéria animada, como por exemplo, em alguns tipos de biologia teleológica, não é cientifica[7]. Assim, se podemos admirar a audácia da especulação biológica de Freud, temos que reconhecer que os conceitos de Eros e Thanatos estão fora da estrutura da psicologia psicanalítica.

 

            Freud habitualmente evitava deixar-se levar pela especulação biológica quando não podia confirma-la pelos achados da observação introspectiva psicanalítica. Um exemplo deste empirismo está contido em seus artigos sobre a sexualidade feminina. Muita coisa tem sido dita acerca de  um suposto preconceito anti-feminino de Freud, conforme evidenciado em sua insistência na importância dos impulsos fálicos no desenvolvimento da sexualidade feminina. A verdade biológica evidente parece ser de que a mulher dever ter tendências femininas primárias e que não é aceitável que a feminilidade seja explicada como uma retirada de uma masculinidade frustrada. Não é provável que a opinião de Freud fosse devida a uma visão escotomizada que limitasse seus poderes de observação. É muito mais provável que eles se recusasse a mudar seus pontos de vista acerca da sexualidade feminina em função de sua confiança na evidência clínica que estava então aberta para ele – através da observação psicanalítica  e assim não quisesse aceitar como fato psicológico uma especulação biológica plausível. Penetrando além das atitudes e sentimentos femininos de suas pacientes, ele regularmente encontrava o conflito sobre os impulsos fálicos e embora aceitasse a bissexualidade biológica, recusava o postulado de uma fase psicológica anterior da feminilidade sem ter evidência psicológica disso.

 

            A atitude de Freud a propósito do desenvolvimento da sexualidade feminina é um dos muitos exemplos de sua fiel adesão ao método introspectivo e empático de observação. No entanto, é preciso admitir que, apesar de sua habitual lealdade ao método psicanalítico de observação, Freud preferiu não se manifestar quanto a alguns de seus conceitos e mantê-los numa terra de ninguém entre a biologia e a psicologia. Mas uma semelhante região fronteiriça deixa de existir, uma vez que se tome a posição operacional. Visto deste ângulo, considerar o ponto de vista dinâmico com seu conceito de instinto como sendo hormonal ou bioquímico (isto é, biológico do ponto de vista operacional) é quase a mesma coisa que pensar no conceito de superego do ponto de vista estrutural como sendo anatômico.

 

 

O LIVRE ARBÍTRIO E OS LIMITES DA INTROSPECÇÃO

 

            A psicologia, e especialmente a psicanálise, (Knight, 1946; Lipton, 1955) têm sido ultimamente confrontadas com uma nova edição de um paradoxo que sob diversas formas empestou durante muito tempo a teologia, a filosofia e a jurisprudência: como a nossa faculdade de fazer uma escolha ou de chegar a uma decisão é compatível com a lei do determinismo psíquico? A primeira vista, parece que a psicanálise dá peso ao argumento contrário à existência livre arbítrio ao mostrar (1º) como somos conduzidos por forças irracionais que apenas conseguimos racionalizar; e (2º) que tendemos a fazer uma supervalorização narcísica de nossas funções psíquicas e, por isso, abrigamos um sentimento megalomaniacamente iludido de liberdade a propósito de nossas queridas atividades mentais superiores. Mas o exame mais detido mostra a atitude psicanalítica a propósito da existência da escolha e da decisão não é simples nem isenta de divergências. A posição contraditória do próprio Freud talvez seja mais bem descrita pela afirmação de que nas entrelinhas e como uma opinião pessoa endossou a convicção de que havia uma área de liberdade, escolha e decisão na psicologia humana. Mas que, por outro lado, durante muito tempo ele relutou intensamente quanto a incorporar de maneira direta esta convicção à estrutura teórica de sua ciência. É característico desta irresolução que sua famosa e freqüentemente citada afirmação acerca do objetivo da psicoterapia psicanalítica esteja relegada a uma nota de rodapé. Ele diz em “Ego e o Id” (Freud, 1923) que a psicanálise se dispõe a “dar ao ego do paciente liberdade para escolher um caminho ou outro” (p.50; o itálico é de Freud). As formulações teóricas mais primitivas de Freud estavam orientadas em direção ao determinismo psíquico absoluto e parece não haver lugar para uma “liberdade do ego... para decidir” em seu sistema teórico mais antigo. Servem como ilustrações deste ponto de vista: (a) o conceito de Ichitriebe (impulsos do ego, instintos do ego); (b) a afirmação de que o ego se desenvolve a partir do id; e (c) a afirmação de que o principio da realidade é apenas um principio do prazer modificado. Mas as formulações teóricas posteriores de Freud começaram a incorporar, reconhecidamente apenas de maneira implícita na maioria dos casos, mas um pouco de espírito de suas convicções iniciais a propósito de alguma liberdade ou independência do ego. A ênfase sobre o ego como estrutura psíquica e algumas observações acerca da gênese independente do ego em “Analise Terminável e Interminável” (Freud, 1937) em adiantamento à afirmação contida em “O ego e o Id” são exemplos desta ligeira modificação em sua visão teórica. Esta afirmação pode ser vista como antecipando aquilo que designamos agora de autonomia do ego, desde Hartmann (1939).

 

            Talvez uma parte da confusão possa ser reduzida se novamente abordarmos o problema definindo claramente o método de observação pelo qual obtemos a matéria-prima para nossas abstrações teóricas. Para uma ciência que obtém o seu material de observação através da introspecção e da empatia, a pergunta pode ser formulada da seguinte maneira: Podemos observar em nós mesmos a capacidade de escolher e decidir? Será que a continuação da introspecção (analise das resistências) conseguiria dissecar essa capacidade até seus componentes subjacentes? As configurações psicológicas contrárias, a saber, a experiência de ser compelido e a experiência da indecisão  e da dúvida (por exemplo obsessiva), habitualmente podem ser decompostas por meio da introspecção.  À medida que conseguimos reduzir estes fenômenos pelo método psicanalítico determinando seus motivos, estamos simultaneamente caminhando na direção do restabelecimento da escolha e da decisão livres. Será que podemos fazer o  mesmo com a capacidade de escolha introspectivamente observada?  Será que podemos, pela introspecção, decompor a experiência de fazer uma escolha em componentes de compulsão e narcisismo?  A resposta a esta pergunta é não, apesar da ênfase que a psicanálise põe na motivação inconsciente e na racionalização pois, sob condições favoráveis, o máximo que se conseguiu através da persistente recuperação de motivações inconscientes e de racionalizações foi uma experiência de liberdade cada vez mais ampla e mais vivida.

 

            Cada ramo da ciência tem seus limites naturais determinados aproximadamente pelos limites do seu instrumento básico de observação. O cientista físico admite que toda a teoria tem que começar com certos fatos inexplicáveis que estão além da causalidade, por exemplo, a existência da energia no universo. Estas variáveis inexplicáveis (os elementos, o calor, a eletricidade, etc.) podem ser substituídos e seu número pode ser reduzido à medida que as ciências físicas se modificam ou progridem. Mas a redução a um único elemento não parece útil a uma ciência que tem que levar em conta  a variedade dos fenômenos naturais. Assim, cada ciência chega a um pequeno número ideal de conceitos básicos. Os limites da psicanálise são ditados pelos limites da introspecção e da empatia potenciais. Dentro do campo observado reina a lei do determinismo psíquico que compreende a suposição de que a introspecção, sob a forma de livre associação e análise das resistências, é potencialmente capaz de revelar motivações para nossos desejos, decisões, escolhas e atos. Mas a ciência introspectiva tem que reconhecer os limites além dos quais o seu instrumento de observação não alcança e tem que aceitar à sua disposição. Podemos reconhecer desejos e outras forças impulsionadoras internas e podemos expressar este fato da observação que não pode ser mais reduzido introspectivamente, pelo termo “instinto” ou como instinto sexual agressivo. E podemos observar, por outro lado, a experiência de um “eu” ativo: seja dissociado do instinto (na auto-observação) ou fundindo com o instinto não-descarregado (como a experiência de  um desejo) ou mesclado em modalidades de descarga motora (como ação). Aquilo que experimentamos como liberdade de escolha, como liberdade de decisão e congêneres, é uma expressão do fato de que a experiência do eu e um núcleo de atividade que emanam e daí não podem, no momento presente, ser divididos em componentes pelo método introspectivo. Portanto, estão além da lei de motivação, isto é, além da lei do determinismo psíquico.



[1]  – Apresentado pela primeira vez em Chicago, na Reunião do Vigésimo Quinto Aniversário do Instituto de Psicanálise de Chicago, em novembro de 1957. Publicado no Journal of The American Psychoanalytic Association (1959), 7:459-483. Uma versão resumida foi apresentada em Paris, na reunião da Associação Psicanalítica Internacional em julho de 1957.

[2] – Freud (1915c, p. 169) expressou idéias semelhantes.

 

[3] – Freud (1910b) estabeleceu um contraste entre perturbações neuróticas e perturbações psicogênicas, o que equivale a dizer sintomas psiconeuróticos.

 

[4] – A propósito da aceitação do vestígio de memória como um conceito estrutural, ver Glover (1947).

[5]  A experiência introspectiva das lutas com o objeto marginal nas psicoses e nos estados fronteiriços não é a mesma coisa do que a observação de relações interpessoais. É instrutivo estudar as conseqüências de uma combinação destas duas abordagens teóricas realizada por exemplo, pelo em emprego de um conceito de ligação como o do “observador participante”, no qual a distinção proveitosa entre o conceito estrutural de uma transferência objetal nas neuroses e o objeto interpessoal arcaico nas perturbações narcísicas desaparece. O resultado é o aparecimento de uma concepção lógica e internamente consistente da psicopatologia na qual, entretanto, os mais diversos fenômenos clínicos podem ser vistos como variedades ou graus de esquizofrenia (Sullivan, 1940 p. 5 – “Conceptions of Modern Psychiatry”).

 

[6]Considerações paralelas a estas elaboradas para a sexualidade, também se aplicam à outra continuidade de experiência observada por introspecção, isto é, hostilidade-agressão.

 

[7]  Thalassa de Ferenzi (1924) é o exemplo notável da superxtensão do método introspectivo e empático.

 

BASTIDORES

PSICANÁLISE EM CHICAGO: UM POUCO DA SUA HISTÓRIA.

 

A psicanálise há muito tempo faz parte da rica e muitas vezes inovadora vida cultural de Chicago. Na cidade que deu ao mundo a arquitetura moderna, para não mencionar suas muitas outras contribuições para as ciências naturais, as ciências sociais e as artes, não são de admirar que tenha sido o radical jovem presidente da Universidade de Chicago, Robert Maynard Hutchins quem, em 1930, convidou Franz Alexander, de Berlim, a se tornar o primeiro professor de psicanálise na nova escola de medicina daquela Instituição. Com 30 anos de idade, Hutchins tinha acabado de se tornar chanceler no ano anterior e a faculdade de medicina começara em 1927, com a então revolucionária inovação de uma congregação de tempo integral. Infelizmente, a hostilidade dirigida contra a escola pela comunidade médica de Chicago – a Sociedade Médica local colocou numa lista negra todos os médicos da congregação – foi ainda mais forte na atitude da própria escola contra Alexander e às idéias psicanalíticas trazidas por ele. Cada afirmação de Alexander era desafiada e ele terminou sendo acusado de inadequação ética. Após um único ano de total perplexidade, ele abandonou a Universidade e preparou a formação da Sociedade Psicanalítica de Chicago, em junho de 1931.

 

 Entre os 12 membros fundadores estavam Leo Bartemeier, Lionel Blizsten, Thomas French, Helen Mclean e Karl Menninger.

          

 

Nos anos 40 Alexander formulou algumas noções muito controvertidas. Não gostando da “dependência” que a análise parecia promover, ele encurtou o prazo do tratamento e o tornou menos intenso. Atendendo pacientes 3 vezes por semana em vez de 4 ou 5, manipulou suas atitudes de modo a atuar ao contrário das figuras do passado do paciente. Chamou essas manipulações de “experiências emocionais corretivas”, dando assim um mau nome para um bom conceito. Essas experiências iconoclásticas despertaram a ira do “establishment” psicanalítico da costa Leste, mas também encontraram resistências crescentes locais.

 

Um grupo de analistas que tinha sido analisado por Blitzsten, liderado por Maxwell Gitelson e Joan Fleming, ao qual aderiu Heinz Kohut, conduziu a uma espécie de golpe de estado e, em 1956, Alexander foi para o exílio em Los Angeles.

 

 QUEM  ERAM ESSAS PESSOAS?

LIONEL BLITZSTEN             

 

Buscou fazer análise com Freud em Viena, que o teria rejeitado porque teria chegado atrasado 15 minutos para a entrevista, apesar de sua desculpa de que o táxi enguiçara. Depois, procurou Alexander em Berlim, onde freqüentou alguns cursos no Instituto. Segundo Orr, Blitzsten “foi para a Europa no início dos anos 20; após alguns anos formou-se no Instituto de Berlim e voltou a Chicago em 1925 como psicanalista”. Passou a dominar a psicanálise em Chicago. Foi o primeiro presidente da Sociedade Psicanalítica de Chicago e um ano depois passou a ensinar no Instituto de Psicanálise, dirigido por Franz Alexander, mas logo divergiu de seu diretor.

 

Em 27 de janeiro de 1976, numa reunião da Sociedade Psicanalítica de Chicago, uma tentativa de definir as contribuições teóricas de Blitzsten, em particular no território dos problemas narcísicos, despertou intensas paixões facciosas, remanescentes dos ácidos combates que tiveram lugar nos primeiros tempos da Sociedade, entre os aliados de Blitzsten e os membros do Instituto. Uma observação útil foi feita por Heinz Kohut que sentia que Blitzsten não tinha muita capacidade de conceituação e era essencialmente um “homem de ação” – impaciente. Ele o contrastou com Alexander, a quem considerava um conceituador muito cuidadoso; e no entanto este parecia incapaz de focalizar questões humanas significativas, algo que aquele fazia facilmente. Estivesse Kohut certo ou não em sua avaliação, o psicanalista naturalmente vai desconfiar de transferência mal resolvida na qual o violento debate público envolve analista e analisando, como era o caso de Blitzsten e Alexander. Mais tarde, Maxwell Gitelson que tinha feito análise com os dois, parece ter tomado o partido de Blitzsten. Alexander vai-se embora de Chicago em 1956.

 

HELEN McLEAN

 

Possuía interesses diversificados. Estou na China junto com seu marido. Estava interessada nas diferenças culturais e nas relações raciais, bem como na análise psicológica da grande literatura, com ênfase especial nos gregos antigos. Uma de suas últimas publicações era sobre educação médica na África.

 

Teve um papel importante na cena psicanalítica de Chicago. Era uma das três mulheres a participar do corpo docente do Instituto, juntamente com Margaret Gerard e Catherine Bacon. Aposenta-se ao final dos anos 60.

 

 

PORQUE MENCIONAR TUDO ISSO?

 

Para terem uma compreensão da importância do trabalho “Introspecção, Empatia e Psicanálise. Um Estudo da Relação entre Método de Observação e Teoria”. Este “paper” foi solicitado a um Kohut com 44 anos de idade (1913), sete anos após ter completado sua formação no Instituto de Chicago.

 


Preparou-se. Fez um breve resumo apresentado no 20º Congresso da I.P.A. presidido por Hartmann, em Paris na “Maison de La Chimie”. O trabalho passou desapercebido. Apresenta-o, em novembro de 1957, na Sociedade de Chicago tendo uma mesa composta por FRANZ ALEXANDER, MAXWELL GITELSON, LOEWENSTEIN e HELEN McLEAN. 

 

 

Sabemos que Franz Alexander  se notabilizou por buscar fazer uma ligação entre a psicanálise e a biologia, através da aplicação do método psicanalítico para explicar síndromes médicas. Conseqüentemente, utilizava os conceitos de instintos e pulsões. REAÇÃO: GROSSEIRA, quase chegando a manifestações físicas de desaprovação – “quase ofensivo nos seus comentários”.

 

Maxwell Gitelson. POSIÇÃO MÉDIA.

 

Loewenstein. Conhecido em New York por fazer parte de um trio, junto com Hartmann e Kris defensores da “Psicologia do Ego” – uma teoria da adaptabilidade do ego. Uma abordagem muito próxima do cultural e do social. REAÇÃO: CRÍTICA SEVERA, porém RESPEITUOSA.

 

Helen McLean. REAÇÂO: “CALOROSA ACEITAÇÃO E ORGULHO”.

 

 

PORQUE DESTAS REAÇÕES ?

 

 

1.      Kohut fez uma crítica ao modelo da psicanálise praticada, porque entendeu estar entrando pela BIOLOGIA e o SOCIAL. Portanto, se opondo ao pensamento psicanalítico da época.

 

  1. Kohut ficou com a impressão que não entenderam a sua proposta, que era a de “UM ESTUDO DA RELAÇÃO ENTRE MÉTODO DE OBSERVAÇÃO E TEORIA”.

 

  1. A VIRADA PARA A PSICOLOGIA DO SELF

Prenderam-se ao termo EMPATIA, que já era e continuou sendo hoje um termo muito conotado afetivamente. A Empatia é, freqüentemente, confundida com SIMPATIA, com CALOR HUMANO. Isto transposto para o “setting” psicanalítico, era como se fosse uma ATITUDE ATIVA DE BENEFICIAMENTO ou de FAVORECIMENTO da presença do analisando pelo analista. Isto foi considerado na época, um desvio da técnica, uma PSICOTERAPEUTIZAÇÃO DO “SETTING” PSICANALÍTICO.

Daí, em diante Kohut passou os 25 anos mais produtivos da sua vida até 4 dias antes de morrer (diante das câmeras de TV na Universidade de Berkely) falando alegremente sobre INTROSPECÇÃO e EMPATIA.

 

  1. IMPORTÂNCIA DO TRABALHO

 

Explicitação de uma METODOLOGIA que irá acompanhar Kohut o tempo todo por uma PSICANÁLISE PSICOLÓGICA separada da Biologia e do Social. Com isto, quero dizer que separado é separar o que é PSICOLÓGICO do que pode ser chamado de fenômeno BEHAVORISTA, SOCIAL ou PSICOSSOMÁTICO.

 

COMO SE FAZ ENTÃO UMA PSICANÁLISE PSICOLÓGICA ?

 

1.   PELA DELIMITAÇÃO DO CAMPO PSICOLÓGICO

 

  1. O campo psicológico é só aquele que pode ser observado FUNDAMENTALMENTE pela INTRONSPECÇÃO e EMPATIA ou INSTROSPECÇÃO VICARIANTE. COLOCAR-SE NO LUGAR DO OUTRO e procurar decodificar um significado do discurso do Outro, DESDE O LUGAR DA EXPERIÊNCIA EXISTENCIAL DO OUTRO.

 

  1. NÃO É UMA LEITURA METAPSICOLÓGICA DO DISCURSO, na qual se está buscando onde está a resistência, o mecanismo de defesa, o impulso – procurando o que a Metapsicologia indica.

 

  1. A proposta kohutiana é da Introspecção em si mesmo e da Empatia com o Outro, visando recolher dados da experiência do Outro. Conseqüentemente, é MÉTODO DE CAPTAÇÃO DE DADOS. Com o passar do tempo, isto veio a se chamar uma LEITURA HERMENENÊUTICA DO MATERIAL PSICANALÍTICO (Hermenêutica é uma Ciência que se ocupa em decodificar textos sagrados, literários ou interpretação do sentido das palavras ou das leis).

 

  1. INTERPRETAÇÃO DO TEXTO A PARTIR DO PRÓPRIO AUTOR, o enunciador do discurso.

 

  1. MÉTODO DIFERENTE. Portanto, uma revisão dos conceitos psicanalíticos como o de IDENTIDADE, porque não pode ser obtido por introspecção e empatia, o que seria uma abstração teórica – é um conceito da Psicologia Social.

 

  1. MÉTODO DE COLETA DADOS, baseado na DIALÉTICA EXPERIENCIAL DE ACERTO-ERRO. É um método accessível a qualquer pessoa, que se disponha a se exercitar. Incluindo sensíveis e intuitivos.

 

  1. É treinar OUVIR. Fazer uma suposta tradução do discurso do Outro. Apresentar esta tradução e verificar como ela é recebida. Então, dando VALIDADE À RESPOSTA neste interjogo e aí dizer: “Eu acho que foi isso”. O enunciador do discurso concorda ou discorda.

 

  1. NÃO  ENVOLVE UM TALENTO ESPECIAL DO PSICANALISTA EM REVELAR VERDADES AO PACIENTE.

 

  1. É MÃO-DE-OBRA PURA E SIMPLES, SEM INTUIÇÃO EXTRAORDINÁRIA. Imersão prolongada no discurso do paciente, imersão prolongada na sua própria introspecção e tentativa no ensaio de buscar acertos e erros.

 

  1. O conceito é isento de qualquer conotação moral, ética, sugestiva, afetiva e emocional. Porque empatia tanto serve a favor ou contra alguém.

 

  1. MÉTODO. Não é proposta afetiva, mas que pelos resultados cria um clima integrativo.

 

O Primeiro Período 
 1950-1959

O Segundo Período
 1959-1966

O Terceiro Período
1966-1977

O Quarto Período 
1978-1981

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Atualizada em  segunda-feira, 21 de maio de 2001