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Um
Estudo da Relação entre Método de Observação e Teoria
Os homens e os animais examinam seu ambiente por meio dos órgãos
dos sentidos: ouvem, cheiram, vêem e tocam; formam impressões
coesivas acerca desse ambiente, recordam essas impressões,
comparam-nas e desenvolvem expectativas à base de impressões
anteriores. As investigações do homem se tornam cada vez mais
consistentes e sistemáticas, o alcance dos órgãos sensoriais se
amplia através dos instrumentos (telescópio, microscópio), os fatos
observados são integrados em unidades maiores (teorias) por intermédio
de pontes de pensamentos conceitual (as quais, por sua vez, não podem
ser observadas); e destarte, gradualmente, com passos imperceptíveis,
expande-se à investigação científica do mundo externo.
O mundo interno não pode ser observado através dos nossos órgãos
sensoriais. Nossos pensamentos, desejos, sentimentos e fantasias não
podem ser vistos, cheirados, ouvidos, nem tocados. Não têm existência
no espaço físico e, no entanto, são reais e podemos observa-los à
medida que ocorrem no tempo: por meio da introspecção em nós mesmos
e por meio da empatia (isto é, introspecção vicária), nos outros.
Mas estará correta a diferenciação acima? Será que
realmente os pensamentos, desejos, sentimentos e fantasias não têm
existência física? Não haveria processos subjacentes que poderiam,
por um lado, ser registrados através de recursos físicos altamente
apurados e ainda, por outro lado, ser experimentados como pensamentos,
sentimentos e fantasias e desejos? O problema antigo e familiar e não
pode ser resolvido enquanto for apresentado sob a forma de alternativa
de unidade ou dualidade de corpo e mente. A única definição
proveitosa é operacional. Falamos de fenômenos físicos quando o
ingrediente essencial do nosso método de observação inclui os
nossos sentidos; falamos de fenômenos psicológicos quando os
ingredientes essenciais da nossa observação são a introspecção e
a empatia.
É evidente que as definições precedentes não devem ser
compreendidas no estreito sentido de uma operação real que esteja
ocorrendo num dado momento, mas no mais amplo sentido da atitude total
do observador em direção ao fenômeno que está sendo pesquisado.
Assim como planetas que ainda não foram vistos influenciam o curso de
outros planetas que estão sob observação direta e os astrônomos
podem, dessa forma, apreciar o curso, o tamanho, a magnitude (isto é
o brilho) de corpos celestes que ainda não apareceram em seus telescópios;
e esses mesmos astrônomos continuam a pensar nas propriedades físicas
de cometas que só depois de muitos anos voltarão a aparecer em seu
campo de observação, considerações semelhantes também se aplicam
no campo psicológico. Em psicanálise, por exemplo, consideramos o Pré-Consciente
e o Inconsciente como sendo estruturas psicológicas não só porque
os abordamos com intenção introspectiva, nem só porque
podemos eventualmente
atingi-los por meio da introspecção, mas também porque consideramos
dentro de um enquadramento de experiência observada por introspecção
ou potencialmente observada por introspecção.
À medida que os dados da nossa observação vão se
organizando e as nossas observações vão se tornando cientificamente
sistemáticas, começamos a lidar com uma variedade de conceitos que
estão cada vez mais distantes dos fatos observados. Alguns desses
conceitos constituem abstrações ou generalizações e estão, por
isso, mais ou menos ligados aos fenômenos que podem ser observados,
por exemplo, o conceito zoológico “mamífero” é derivado da
observação é concreto de uma variedade de animais individual
destino: mas um mamífero sozinho não pode ser observado. Mas ou
menos o mesmo acontece em psicologia. O conceito de instinto em psicanálise,
por exemplo, é assim derivado da observação pó introspecção de
inumeráveis experiências, como vai ser demonstrado mais adiante; mas
um instinto sozinho não pode ser observado. Outros conceitos, como o
da aceleração nas ciências físicas ou o da psicanálise, não se
referem diretamente aos fenômenos observados. Mas tais conceitos
evidentemente pertencem à estrutura total de suas ciências
respectivas porque designam relações entre os dados observados.
Observamos corpos físicos no espaço, anotamos suas posições físicas
ao longo de um eixo de tempo e assim chegamos ao conceito de aceleração.
Observamos introspectivamente pensamentos e fantasias, observamos as
condições de seu aparecimento ou desaparecimento e chegamos assim,
ao conceito de repressão.
Mas, será que é sempre verdade que a introspecção e a
empatia são constituintes de toda observação psicológica? Não
haverá fatos psicológicos que possamos averiguar pela observação não-introspectiva
do mundo externo? Vamos considerar um exemplo simples. Vemos uma
pessoa que é extraordinariamente alta. É indiscutível que o tamanho
incomum dessa pessoa é um fato importante para nossa avaliação
psicológica – ma sem a introspecção e a empatia o tamanho da
pessoa continua simplesmente um atributo físico. Só quando nos
imaginamos no lugar da pessoa, só quando por introspecção vicária
começamos a reviver experiências íntimas nas quais tínhamos sido
incomuns ou conspícuos, só então começaremos a apreciar a
significação que a altura incomum possa ter para essa pessoa e, só
então, teremos observado um fato psicológico. Considerações
semelhantes também se aplicam a propósito do conceito psicológico
de ação. Se observarmos apenas os aspectos físicos sem introspecção
e empatia, estaremos observando não o fato psicológico de uma ação,
mas apenas o fato físico de movimentos. Podemos medir uma elevação
de sobrancelhas até à mínima fração de um centímetro, no
entanto, só por meio da introspecção e da empatia poderemos
compreender os matizes de significado de assombro e desaprovação
contidos numa elevação de sobrancelhas. Mas uma ação não poderia
ser compreendida sem recorrer-se à empatia, simplesmente
considerando-se seu curso visível e seus resultados visíveis? Ainda
aqui a resposta é negativa. O fato puro e simples de vermos um tipo
de movimento que conduz a um fim específico, por si só não define
um ato psicológico. O acontecimento em que uma pedra se solta de um
telhado e mata um homem não é uma ação no sentido psicológico por
da causa da ausência de uma intenção ou motivo com que possamos
empatizar. E não obstante o fato de reconhecermos que há
determinantes inconscientes a muitos acontecimentos acidentais,
podemos distinguir corretamente as conseqüências acidentais das
nossas atividades, de ações propositais. Um homem deixa cair uma
pedra, a pedra cai e mata outro homem. Se houver uma intenção
consciente ou inconsciente com a qual possamos empatizar, falaremos de
um ato psicológico; se essa intenção não estiver presente,
pensaremos numa cadeia de causa-e-efeito de eventos físicos. Por
outro lado, se fosse possível descrever, termos de física e bioquímica,
a maneira pela qual a onda sonora de certas palavras dita por A
mobilizaram certos padrões eletroquímicos no cérebro de B, esta
descrição ainda não conteria o fato psicológico apresentado pela
afirmação de que A enfureceu B. Só um fenômeno que possamos tentar
observar por introspecção ou por empatia com a introspecção alheia
pode ser chamado psicológico. Um fenômeno é “somático”,
“comportamental” ou “social” se nossos métodos de observação
não incluírem predominantemente a introspecção e a empatia.
Podemos assim repetir a primeira definição sob a forma de uma
afirmação explícita: designamos um fenômeno como sendo mental, psíquico
ou psicológico se o nosso modo de observação incluir a introspecção
e a empatia como constituintes essenciais. O termo
“essencial”, neste contexto, expressa o fato que a introspecção
ou a empatia nunca poderão estar ausentes da observação psicológica
e que podem estar presentes sozinhas. As considerações apresentadas
anteriormente demonstraram a primeira metade desta afirmação. Para
demonstrar a segunda metade (de que a introspecção e a empatia podem
estar presentes sozinhas na observação do material psicológico)
podemos voltar-nos para a psicanálise. Aqui temos que considerar,
antes de qualquer coisa, a objeção que pode ser levantada por alguns
de que o principal instrumento da observação psicanalítica não é
a introspecção, mas o exame pelo analista de um tipo de
comportamento do paciente: a livre associação. No entanto, um grande
corpo de fatos clínico foi descoberto por meio de auto-análise e um
sistema de abstrações teóricas foi desenvolvido a partir desses
fatos, por exemplo em “A Interpretação dos Sonhos”, de Freud. Na
situação analítica habitual, também o analista é testemunha da
auto-observação introspectiva do analisando. É verdade que os
insights psicológicos do analista freqüentemente vêm adiante da
compreensão que o analisando pode ter de si mesmo. Mas esses insights
psicológicos são resultado da habilidade introspectiva treinada que
o analista emprega na extensão da introspecção (introspecção vicária)
que é chamada empatia.
É claro que estas considerações não implicam em que a
introspecção e a empatia sejam os únicos ingredientes da observação
psicanalítica. Na psicanálise, como em todas as outras formas de
observação psicológica, introspecção e empatia, os constituintes
essenciais da observação, estão freqüentemente presas a outros métodos
de observação. Mas o fato final e decisivo da observação é
introspectivo ou empático. E podemos, além disso, demonstrar que, no
caso da auto-análise, a introspecção está presente.
Poderia ser proveitoso, neste ponto, estudar o emprego da
empatia fora da psicologia cientifica. Na vida diária, as nossas
atitudes não são cientificamente sistemáticas e tendemos a ver os
fenômenos como mais ou menos psicológicos ou mentais, dependendo da
nossa maior ou menor capacidade de empatizar com o objeto da nossa
observação. A nossa compreensão psicológica é mais facilmente
atingida quando observamos pessoas do nosso próprio ambiente
cultural. Seus movimentos, seu comportamento verbal, seus desejos e
sensibilidades são semelhantes aos nossos e somos capazes de
empatizar com eles à base de indícios que podem parecer
insignificantes a pessoas de um ambiente cultural diferente. Mas mesmo
quando observamos pessoas de uma cultura diferente, cuja experiência
é diversa da nossa, habitualmente acreditamos que seremos capazes de
compreende-las psicologicamente através da descoberta de alguma
experiência comum com que possamos empatizar. Mas ou menos a mesma
coisa ocorre em relação aos animais: quando um cachorro saúda seu
dono após uma separação, sabemos que há um denominador comum entre
nossas experiências e o que o cachorro experimenta no fim de uma
separação de um “tu” amado; e podemos começar a pensar em
termos psicológicos, mesmo que estejamos inclinados a insistir em que
as diferenças entre experiência humana e experiência animal devem
ser muito grandes. Mas dificilmente alguém falaria numa psicologia
vegetal. É verdade que algum observador entusiasta de flores pode ver
no movimento das plantas que se voltam na direção ao sol e do calor
algo com que consegue empatizar, um impulso interno, um anseio
ou um desejo – mas isso vai ser mais no sentido de alegoria
ou poesia porque não podemos conceder aos vegetais a capacidade de
autoconsciência rudimentar (como concedemos a alguns animais). Mas
ainda há outras gradações. Observamos a água correndo
morro-abaixo, procurando o caminho mais curto, evitando obstáculos e
podemos mesmo descrever estes fatos em termos antropomórficos
(correndo, procurando, evitando); mas ainda assim estamos falando de
uma psicologia de corpos inanimados – muito menos de uma psicologia
de vegetais
.
Assim, a introspecção e a empatia representam um papel em
toda compreensão psicológica; no entanto, Breuer e Freud foram
pioneiros por excelência no emprego científico da introspecção
e da empatia. A ênfase nos aperfeiçoamentos específicos da
introspecção (isto é, livre associação e análise de resistências),
a descoberta que marcou época de um tipo de experiência interna até
então desconhecida e que só emerge com o auxilio dessas técnicas
especificas de introspecção (isto é, a descoberta do inconsciente)
e o alcance da nova compreensão de fenômenos psicológicos normais e
anormais, tenderam a obscurecer o fato de que o primeiro passo foi a
introspecção do emprego consistente da introspecção e da empatia,
como instrumentos de observação de uma nova ciência. A livre
associação e a análise de resistências, as técnicas fundamentais
da psicanálise liberaram a observação introspectiva de distorções
previamente não-reconhecidas (racionalizações). Assim, não há dúvidas
quanto a que a introdução da livre associação e da análise de
resistências (com o conseqüente reconhecimento das influências
falseadoras de um inconsciente ativo) determina especificamente o
valor da observação psicanalítica. Mas o reconhecimento desse valor
não contradiz o reconhecimento de que a livre associação e a análise
das resistências devem ser consideradas instrumentos auxiliares,
empregados a serviço do método de observação introspectivo e empático.
Com a conclusão dessas observações introdutórias, estamos
prontos agora para nos voltarmos para o corpo principal do presente
estudo. O estudo que se segue não está primariamente ligado às múltiplas
experiências de analisando e analista, nem tampouco tem por objetivo
a elucidação da introspecção e da empatia dos pontos de vista dinâmico
e genético. De agora em diante, tomaremos como certo por antecipação
que a introspecção e a empatia são os constituintes essenciais dos
descobrimentos psicanalíticos e vamos tentar demonstrar como este método
de observação define os conteúdos e limites do campo observado. E
porque os conteúdos e limites do campo, por sua vez, determinam as
teorias de uma ciência empírica, também será nossa tarefa neste
estudo demonstrar a ligação entre a introspecção e a empatia
psicanalítica, particularmente nas áreas em que a desatenção a
essa conexão levou a inexatidões, omissões ou erros.
RESISTÊNCIAS
CONTRA A INSTROPECÇÃO E A EMPATIA
As resistências contra a livre associação são adequadamente
consideradas como conseqüência da função de defesa da mente. O
paciente se opõe à livre associação por meio dos conteúdos
inconscientes e de seus derivados; e há uma resistência contra o
processo de análise que se ocupa da significação de fantasias
masturbatórias proibidas, agressões, etc. Mas parece haver uma
resistência mais geral contra o método psicanalítico e que se
expressa de modo altamente racionalizado: uma resistência contra a
introspecção. Talvez tenhamos descuidado do exame do emprego
cientifico da introspecção (e da empatia), talvez tenhamos deixado
de experimenta-las ou aperfeiçoa-las porque ainda relutamos em
reconhecê-la francamente como o nosso método de observação. Parece
que nos envergonhamos da introspecção e não queremos menciona-lo
diretamente; e , no entanto, com todas as suas falhas, a introspecção
abriu caminho para grandes descobertas. Deixando de lado as causas sócio-culturamente
determinadas da nossa hesitação a propósito da introspecção
(exemplificadas em chavões como mística, ioga, oriental, não-ocidental),
ainda não conseguimos identificar a razão subjacente para o
preconceito contra o reconhecimento do método de observação que deu
tais resultados. Talvez o medo do desamparo através do aumento da
tensão seja o terror que provoca a omissão defensiva do fato de que
a introspecção é um elemento tão importante nas descobertas
psicanalíticas. Estamos habituados a um contínuo escoamento de tensão
através da ação e nos
dispomos a aceitar o pensamento somente como um intermediário para a
atividade, como uma ação postergada, ou como um planejamento ou um
ato tentativo. A introspecção parece opor-se à direção da
corrente por meio da qual alcançamos o alívio da tensão e pode,
portanto, acrescentar o pavor geral da passividade e do aumento da
tensão aos medos mais específicos que se criam quando os conteúdos
reprimidos estão prestes a revelar-se. É verdade que a livre associação
em psicanálise não corresponde, nesse sentido, aos nossos processos
habituais de pensamento. De uma maneira geral, pensar é um “tipo de
atuação experimental, acompanhada pelo deslocamento de uma
quantidade relativamente pequena de catexias” (Freud, 1911a.
p. 221). Pode-se dizer que a terapia psicanalítica no todo prepara
para a (liberdade de) ação; mas a livre associação em si não é
preparatória para a ação, o que faz é predispor para os rearranjos
estruturais através da maior tolerância à tensão.
Freqüentemente os pacientes expressam, nas fases iniciais da
terapia, preocupações acerca da duração da análise e do número
de sessões, justificando isso pelo sacrifício de tempo e dinheiro
que o tratamento exige. Entretanto, tem-se a impressão de que, pelo
menos em alguns casos, essas queixas encobrem o medo mais profundo da
inatividade diante da tensão crescente; em outras palavras, um medo
da inversão prolongada do fluxo de energia por meio da introspecção.
E talvez seja um desconforto similar por parte do analista o que nos
tenha impedido, nas nossas experiências com o método analítico, de
pesquisar os resultados de prolongados períodos de introspecção,
por exemplo, a afetividade de sessões analíticas mais longas.
É claro que a introspecção pode também constituir uma fuga
à realidade. Em suas formas mais patológicas, como em alguns
devaneios artísticos de esquizofrênicos, a introspecção sucumbe
diante do principio do prazer e torna-se uma aceitação passiva de
fantasias. As formas racionalizadas de introspecção dos cultos místicos
e da psicologia mística pseudocientifica estão mais sob o controle
da parte do ego que realiza a introspecção, embora ainda ao sabor
das oscilações do princípio do prazer. Entretanto, o fato de que
possa abusar da introspecção não nos deve enganar quanto ao seu
valor como instrumento cientifico. De mais a mais, a pesquisa as ciências
físicas não-introspectivas pode ver-se envolvida no serviço de um
principio do prazer não-modificado se o cientista empregar a
atividade cientifica para propósitos patológicos. Em psicanálise, a
introspecção não é uma fuga passiva à realidade, mas é, na sua
melhor forma, ativa, pesquisadora e empreendedora. É tão animada
pelo desejo de aprofundar e expandir o campo do nosso conhecimento
quanto o é a melhor das ciências físicas.
AS
ORGANIZAÇÕES MENTAIS PRIMITIVAS
De fato não há somente resistências irracionais opostas à
introspecção, mas também nos defrontamos com limitações realísticas.
Por exemplo, algumas vezes ouvimos a afirmação crítica de que as
descrições ou as teorias de determinado autor são antropomórficas,
ou são adultomórficas ou algo do gênero. Dizendo na linguagem das presentes considerações,
esses termos críticos implicam em que ou os processos empáticos do
observador não foram manejados com discrição ou que o autor em
questão empatizou erradamente. Não pode haver dúvidas quanto a que
a confiabilidade da empatia decresce à medida que aumenta a diferença
entre o observador e o observado. A psicanálise é geneticamente
orientada e vê a experiência humana como uma continuidade
longitudinal de organizações mentais de complexidade e maturidade
variáveis, etc. Assim, os estágios mais antigos do desenvolvimento
mental constituem um desafio especial à capacidade de empatizar
conosco mesmos, isto é, com nossas próprias organizações mentais
anteriores. (Estas considerações, é claro, não se aplicam somente
à abordagem longitudinal, mas também à abordagem de seção
transversal longitudinal, mas também à abordagem de seção
transversal, por exemplo quando falamos de profundidade psicológica
e de regressões psicológicas durante o sono, a neurose, a fadiga, os
estados tensão, etc.). Que espécie de conceito deveríamos utilizar
ao descrever processos psicológicos primitivos, precoces ou
profundos? Na síndrome freudiana das neuroses reais, por
exemplo foi decisivo, do ponto de vista operacional que a introspecção
e a análise persistente (mesmo sob a forma livre associação e análise
de resistências) não tivesse conseguido revelar qualquer conteúdo
psicológico além da ansiedade nas neuroses de ansiedades ou
além de fadiga e dores vagas na neurastenia (Freud, 1898).
Freud deve ter considerado as diversas fantasias que ocasionalmente
encontrava como tendo sido construídas secundariamente a esses
sintomas e como racionalização desses sintomas.
A ausência de achados psicológicos levou Freud à formulação
de que as neuroses reais são expressão direta de perturbações
orgânicas – em outras palavras, de uma condição cuja pesquisa
parece ser mais proveitosa por métodos não-introspectivos de observação,
por exemplo, por meios bioquímicos. Considerações semelhantes se
aplicam a entidades psicológicas como a perturbação neurótica
, a neurose vegetativa
(Alexander, 1943) e a neurose de órgão (Fenichel, 1945), bem
como ao artifício de diferenciar uma fase funcional primária
do desenvolvimento mental
(Glover, 1950). Analogamente, não deveríamos pretender atingir uma
compreensão exata do conteúdo psicológico das fases mais precoces
do desenvolvimento mental, mas ao discutir essas fases precoces, deveríamos
evitar expressões que se referem a fenômenos similares da experiência
posterior. Portanto, deveríamos ficar satisfeitos com aproximações
empáticas imprecisas e deveríamos falar, por exemplo, em tensão em
vez de desejo, em diminuição de tensão em vez de satisfação de
desejo, em condensações e formações de compromissos em vez de solução
de problemas. Os artifícios operacionais que algumas vezes são
empregados na discussão dos estados psicológicos precoces não mais
difíceis de perceber do que aqueles equívocos de terminologia.
Assim, em vez de tentar-se estender uma forma rudimentar de introspecção
empática até um estado mental precoce, oferece-se a descrição de
uma situação social – por exemplo, a descrição da relação
entre mãe e filho. É claro que são indispensáveis a pesquisa e a
descrição das interações precoces entre mãe e filho; mas é
preciso não esquecer que ao fazê-lo, estamos lidando com uma forma
de psicologia social e que, portanto, estamos movendo-nos dentro de um
esquema de referência que deve ser comparado, mas não igualado aos
resultados da psicologia introspectiva.
Portanto, é preciso tomar cuidado para não confundir e não
misturar teorias baseadas em observações realizadas por meio do método
introspectivo, com teorias baseadas no método de observação, por
exemplo, do psicológico social ou do biólogo. O riacho corre
morro-abaixo e , evitando as pedras que encontra em seu caminho,
procura o trajeto mais curto até o rio – e assim se resolve um
problema de adaptação entre a água e seu ambiente. Uma mulher
casada está em conflito acerca da tentação à infidelidade
desenvolve uma cegueira histérica – e mais uma vez pode-se dizer
que foi resolvido um problema de adaptação. Uma outra mulher, em
circunstâncias semelhantes, decide que não quer mais ser tentada;
ela também não quer mais ver o homem tentador e resolve voltar para
casa – e outra vez fica resolvido o problema de adaptação. O
psicológico social pode tentar diferenciar esses processos de adaptação
comparando as diversas complexidades dos meios empregados na solução
– uma diferenciação nada fácil á vista dos computadores (“cérebros”
eletrônicos) da nossa era. Qualquer que seja a solução do psicológico
social ou do biólogo, estará evidentemente em desacordo com a do
psicanalista. Este, ao empregar a introspecção e a empatia, não
distingue os mecanismos por sua eficiência ou ineficiência nem por
sua simplicidade ou complexidade. O psicanalista, por meio da empatia
com as experiências de outra pessoa, comporá os mecanismos avaliando
a distância relativa que há entre as diversas atividades mentais e o
self que realiza a introspecção. Alguns processos psicológicos
(tensão, alívio de tensão do recém-nascido) estão quase além do
alcance da empatia e pode-se dizer que as adaptações que ocorrem estão
mais próximas do movimento da água que interage com as pedras e a
gravidade. Outros processos, se bem que um pouco mais próximos do
observador empático do que os precedentes, estão ainda muito
distantes do ego que observa a si mesmo: as formações de
compromisso, as condensações, os deslocamentos e a superdeterminação
a que chamamos processos primários (por exemplo, na formação do
sistema neurótico); e finalmente, encontramos os processos psicológicos
que estão mais próximos da nossa introspecção e da nossa empatia:
os processos secundários de pensamento lógico, de solução de
problemas e de ação libertadora – a faculdade de escolha e decisão.
CONFLITO
ENDOPSÍQUICO E CONFLITO INTERPESSOAL
Em seguida vamos examinar a posição dos conceitos do conflito
endopsíquico e de conflito interpessoal dentro do arcabouço da
teoria psicanalítica, especialmente a propósito da convicção freqüentemente
expressada de que a psicanálise não é “bastante interpessoal”
ou de que emprega uma estrutura de referência unilateral em vez da
matriz social. Estas opiniões deixam de levar em conta que o
constituinte essencial da observação psicanalítica é a introspecção.
Portanto, é preciso que definamos a significação psicanalítica do
termo “interpessoal” como indicando uma experiência interpessoal
aberta à auto-observação introspectiva; assim é diferente da
significação dos termos relacionamento interpessoal, interação,
transação, etc., empregados pelos psicológicos sociais, dentre
outros.
A investigação inicial de Freud estava dirigida para a
pesquisa introspectiva e empática das neuroses. Seus esforços foram
recompensados com duas grandes descobertas: o inconsciente e o fenômeno
da transferência, isto é, a influência particular exercida pelo
inconsciente sobre a parte do psiquismo mais acessível à introspecção.
A introspecção persistente, nas neuroses transferenciais, leva ao
reconhecimento de uma luta interna entre impulsos: o conflito
estrutural. O analista, enquanto figura transferencial, não é
experimentado no esquema de um relacionamento interpessoal
mas como o portador das estruturas endopsíquicas inconscientes
do analisando (recordações inconscientes). (“Conceitos Mentais Básicos”,
Glover, 1947).
Por exemplo, um paciente relata despreocupadamente que deixou de pagar
a passagem do ônibus na vinda para a sessão. Ele “notou” que o
analista estava singularmente de cara feia quando o comprimentou. O
analista, como figura transferencial (conforme é revelado pela
introspecção persistente com a análise das resistências), é uma
expressão de forças do supergo do analisando (a imago paterna
inconsciente).
Entretanto, o alcance da pesquisa psicanalítica foi crescendo
gradualmente e logo começou a incluir as psicoses. E assim
apresentou-se uma nova dificuldade ao analista: empatizar com as
experiências das organizações mentais primitivas, com as experiências
do psiquismo pré-estrutural. As duas primeiras grandes
descobertas no reino das psicoses foram (1) a compreensão de Freud da
significação da hipocondria psicótica (“Introdução ao
Narcisismo”, 1914b) e Tausk (1919) de que o delírio esquizofrênico
de estar sendo influenciado por uma maquina era a revivescência de
uma forma primitiva de self; uma regressão às dolorosas e
angustiadas experiências que se seguem à perda do contato com uma
experiência de “tu”. Assim, a introspecção persistente nas
perturbações narcísicas e nos estados fronteiriços levou ao
reconhecimento de um psiquismo não-estruturado que luta para manter o
contato comum com um objeto arcaico ou para conservar-se tenuemente
separado desse objeto.
Aqui, o analista não é a tela para a projeção da estrutura interna
(transferência), mas a continuação direta de uma realidade precoce
que foi distante demais, rejeitadora demais ou infidedigna demais para
ser transformada em estruturas psíquicas sólidas. Portanto, o
analista é vivenciado introspectivamente dentro do esquema de uma
relação interpessoal arcaica. Ele é o antigo objeto com o
qual o analisando tenta manter contato, do qual o analisando tenta
separar sua própria identidade e do qual o analisando tenta
retirar um pouco de estrutura interna. Por exemplo, um paciente
esquizofrênico chega a sessão analítica num estado de ânimo frio e
distante. Num sonho da noite precedente, ele estava num campo estéril,
coberto de neve; uma mulher lhe oferece o seio, mas ele descobre que
esse seio é uma borracha. O trabalho que se segue mostra que a frieza
emocional do paciente e seu sonho constituem a reação a uma rejeição
aparentemente mínima do paciente pelo analista, mas que na realidade
foi muito significativa. É claro que na análise das neuroses
transferenciais também ocorrem reações ás rejeições realísticas
do analista e que o reconhecimento e a compreensão dessas reações têm
importância tática. Mas, análise das psicoses e dos estados
fronteiriços, os conflitos interpessoais arcaicos ocupam um lugar que
corresponde à importância do conflito estrutural nas neuroses. As
mesmas considerações se aplicam, mutatis mutandis , aos
conflitos estruturais encontradas nas psicoses.
Não podemos encerrar o tópico sobre conflito endopsíquico e
interpessoal sem fazer mais alguns comentários rápidos acerca da
transferência. A definição básica de transferência de Freud (“a
Interpretação dos sonhos” – 1900 a) foi resultado de
uma formação inequívoca de conceito: a transferência é influencia
do inconsciente sobre o pré-consciente através de uma barreira de
repressão existente (ainda que enfraquecida). Os sonhos, os sintomas
e os aspectos da percepção que o analisando tem do analista são as
formas mais importantes de manifestação da transferência. O emprego
indiscriminado que ora se faz dos termos transferência e
contratransferência (muitas vezes indicando o relacionamento
interpessoal específico no sentido da psicologia social) se origina
na discordância desapercebida quanto ao método de operação sobre o
qual a estrutura teórica deveria estar baseada. Poderemos conservar a
grande vantagem da coerência de modo de operação, sem ficar
paralisados pelo modelo mental mais grosseiro com que Freud trabalhava
em 1900, se ajustarmos o conceito primitivo de transferência ao seu
diagrama estrutural de 1923 e se o definirmos além disso com vistas
à autonomia do ego (Hartmann, 1939) A experiência transferencial do
objeto na situação terapêutica dessa forma reteria sua significação
original de combinação de impulsos objetais infantis reprimidos com
aspectos do analista (insignificantes na realidade presente). Estaria,
assim, claramente distinguida de duas outras experiências: (a) dos
impulsos em direção a objetos que embora emergindo da profundidade,
não atravessam a barreira da repressão (cf. o diagrama de Freud em
“O ego e o Id”: a barreira de repressão separa apenas uma pequena
parte entre o ego e o id); e (b) dos impulsos objetais do ego que,
embora originalmente transferenciais, mas tarde romperam as ligações
com o reprimido e se tornaram escolhas de objetos autônomas do ego.
É importante reconhecer que nos dois casos as escolhas de objetos se
originam em parte no passado, isto é, a escolha de objeto de vida
posterior é modelada de acordo com os moldes da infância. Mas se é
verdade que todas as transferências são repetições, nem todas as
repetições não transferenciais.
Pela abordagem histórica não-introspectiva não é possível
distinguir entre influencias do passado que afetaram o crescimento do
aparelho mental e influências atuais de um remanescente do passado
que ainda está em sua existência real, isto é, o inconsciente
reprimido. Mas através da introspecção persistente cientifica
seremos capazes de distinguir entre escolhas de objetos não-transferênciais
moldadas conforme os modelos da infância (isto é, uma parte daquilo
que muitas vezes é chamado erroneamente de “transferência”
positiva) e verdadeiras transferências. Estas últimas podem ser
desfeitas pela introspecção persistente; aquelas primeiras, no
entanto, estão situadas fora da esfera do conflito estrutural e não
são diretamente afetadas pela introspecção psicanalítica.
DEPENDÊNCIA
Alguns conceitos empregados pela psicanálise não são abstrações
baseadas na observação introspectiva nem na introspecção empática,
mas são derivados de dados obtidos por outros métodos de observação.
É preciso comparar alguns conceitos com abstrações teóricas
baseadas em observações psicanalíticas; mas esses conceitos não são
idênticos a estas abstrações.
Vamos considerar, por exemplo, que a importância da
sexualidade infantil em geral e do Complexo de Édipo em particular
esteja relacionada com uma dependência prolongada, biologicamente
necessitada do bebê, ou mesmo que seja parte dessa dependência. Esta
é uma hipótese psicanalítica? Num sentido geral, é claro que a
resposta é sim porque sabemos que a hipótese em questão não
poderia sequer ter sido formulada nem antes introspectiva da experiência
fálica, anal e erótico-anal nem antes do estabelecimento das paixões
edipianas na transferência. Entretanto, considerações mais exatas vão
demonstrar que nem todos os conceitos utilizados nessa hipótese
podem, sem modificações, ser tratados como se tivessem sido
retirados das observações introspectivas e empáticas. Os problemas
dos instintos e da sexualidade serão considerados mais adiante;
trataremos aqui do conceito da dependência.
O termo dependência pode ser empregado para exprimir duas
significações distintas que, desordenadamente, muitas vezes são
relacionadas entre si, embora nem sempre. O primeiro significado se
refere a um relacionamento entre dois organismos (biologia), ou duas
unidades sociais (sociologia). O observador biológico pode afirmar
que diversos mamíferos recém-nascidos são dependentes (para a
sobrevivência) dos cuidados que recebem dos adultos da espécie que
os criam. É possível fazer juízos semelhantes a propósito da
dependência quanto ao relacionamento entre homens adultos. Na nossa
civilização complexa e altamente especializada, cada membro da
sociedade desenvolve apenas determinadas habilidades e é, portanto,
dependente do todo da sociedade (do somatório das habilidades dos
outros) para sua existência como ele a conhece e, é claro, para sua
própria sobrevivência biológica. Aparte das significações biológica
e sociológica do termo dependência encontra um conceito psicológico
que o mesmo nome e que tem sido amplamente utilizado nas nossas
formulações psicodinâmicas. Dizemos que alguns pacientes ou têm
problemas de dependência ou que desenvolvem problemas de dependência
no curso da psicanálise. Ou falamos de personalidades orais
dependentes e concluímos que sua dependência oral contribui
decisivamente para o desejo que têm de perpetuar o relacionamento com
o analista. Como estamos lidando aqui com um conceito psicanalítico
de dependência, é preciso supor que o obtivemos por meio da observação
psicanalítica de nossos pacientes e que o termo constitui alguma
generalização ou abstração a propósito do estado mental do
analisando. E de fato este é o caso, muitas das vezes, em que dizemos
que um paciente está em conflito quanto aos seus impulsos de dependência
ou, numa formulação estrutural, que esse paciente reprimiu seus
impulsos de dependência. Uma semelhante formulação parece
inquestionável, pois aparentemente estamos apenas aplicando o
conceito demonstrado de regressão. No entanto, fizemos tacitamente
uma suposição que precisamos isolar antes de podermos examinar a
plausibilidade da formulação precedente. Regressão, como termo
psicanalítico, indica o retorno a
um estado psicológico mais antigo. Portanto, nosso problema não
se refere ao fato indiscutível de que um bebê é dependente de sua mãe
(no sentido biológico e não sociológico) mas antes à
desconcertante questão de saber se o estado mental do bebê
corresponde grosseiramente àquilo que encontramos quando descobrimos
impulsos reprimidos de dependência do analisando adulto. Para
demonstrar que não se pode confiar em tais esforços, podemos
considerar a hipótese oposta e afirmar que a auto-consciência
rudimentar do bebê saudável no seio deveria antes ser comparada com
o estado emocional de um adulto que esteja totalmente absorvido por
uma atividade que para ele tenha a mais extrema importância. Assim
como, por exemplo, o corredor no último trecho da corrida de cem
metros rasos, o concertista virtuoso no ponto culminante da cadência
ou o amante no clímax da relação sexual. Portanto, a suposição de
que os estados de dependência no adulto constituem uma regressão a
uma gesthalt psicológica primitiva que não pode ser mais dissecada
pela análise é contrária à nossa compreensão empática das crianças
saudáveis.
É claro que algumas vezes pode ser útil ao psicológico
empregar descobertas ou princípios biológicos a fim de orientar suas
expectativas quanto ao que deve observar. Mas o teste final é a
observação psicológica em si; e é errôneo extrapolar de princípios
biológicos a interpretação de um estado mental especifico, ainda
mais se esses princípios contradizem os nossos achados psicológicos.
Desta forma, veremos que o agarrar-se temeroso ou mesmo teimoso, o
segurar-se, a resistência contra deixar-se andar que encontramos em
alguns dos nossos pacientes adultos não é uma repetição de uma
fase normal do desenvolvimento psicológico, isto é, não é um
regressão ao estado mental da criança razoavelmente normal, filha de
pais razoavelmente normais. As reações de dependência nos adultos,
se são regressões a situações da infância, não se referem a um
retorno à fase oral normal do desenvolvimento, mas à patologia da
infância e freqüentemente a fase da infância mais tardia. São, por
exemplo, reação a experiências especifica de rejeição, isto é,
complicadas misturas de raiva e medo da retaliação. Ou então
protegem o paciente (por exemplo) (contra o aparecimento de culpa ou
ansiedade associada com um conflito estrutural oculto) pelo ato de
agarra-se ao terapeuta que se tornou o portador onipotentemente
benigno das fantasias narcísicas projetadas.
Portanto, devemos também opor-nos à tendência a atribuir a
dependência psicológica quase que exclusivamente à oralidade. Não
há duvidas quanto a que essa associação realmente existe em alguns
casos. Mas a observação empática que permanecer desembaraçada de
expectativas biológicas ficará aberta ao reconhecimento de que uma
grande variedade de instintos pode contribuir para a criação de um
estado de Horigkeit (isto é, servidão) ao terapeuta,
particularmente se forem mantidos num estado de semi-insatisfação
(abstinência psicanalítica incompleta – e quando, por acaso, é
completa?). E em portanto, o agarrar-se insistentemente que
caracteriza o estado psicológico em questão, não é a associação
com um instinto em particular.
Talvez o principio psicológico mais genérico que se poderia
evocar para explicar alguns desses estados seja a resistência à
mudança (“a adesividade da libido”), mas esse ato de voltar-se
para esta explicação, que é a mais geral de todas, só deveria
ocorrer depois que todas as outras possibilidades tivessem sido
esgotadas ou então se houvesse evidências psicológicas diretas
desse fator num caso particular. O episódio seguinte me foi relatado
recentemente por um homem de trinta e cinco anos e talvez possa ser
explicado nesses termos. Ele fora um dos trinta sobreviventes de um
campo de concentração no qual, no curso dos anos em que estivera
preso cerca de cem mil pessoas tenham sido mortas. Quando o avanço
das tropas russas se tornou ameaçador, os guardas nazistas
abandonaram o campo e os trintas companheiros ficaram livres. Embora
estivessem numa condição física passável, levaram quase quatro
longos dias para se decidirem a sair.
O fenômeno da dependência deve ser visto ainda de maneira
diferente em analisandos com estrutura psicológica deficiente. Por
exemplo, alguns adictos não conseguiram adquirir a capacidade de
tranqüilizar-se ou de dormir; não foram capazes de transformar em
faculdade endopsíquica (estrutura) a experiência precoce de ser
tranqüilizado ou de ser posto para dormir. Estes adictos, portanto, têm
que se apoiar nas drogas não como substitutos de relações objetais,
como substitutos de estruturas psicológicas. Se estes pacientes estão
em psicoterapia, pode-se dizer que se tornam adictos ao psicoterapeuta
ou ao procedimento terapêutico. Mas a adição que mostram não deve
ser confundida com transferência: o terapeuta não é uma tela para a
projeção de estruturas psicológicas existentes; ele é um
substituto dessas estruturas. Uma vez que a estrutura psicológica é
necessária, o paciente agora realmente precisa de apoio, da tranqüilização
do terapeuta. Sua dependência não pode ser analisada nem desfeita
pelo insight; tem que ser identificada e reconhecida. De faro, é uma
experiência clinica o fato de que a tarefa psicanalítica mais
importante em tais casos é a análise da negação da necessidade
real; o paciente tem inicialmente que aprender a substituir
um conjunto de fantasias grandiosas inconscientes que são
mantidas com o auxílio do isolamento social por ser tão dolorosa
para ele a aceitação da realidade de ser dependente.
SEXUALIDADE,
AGRESSÃO, INSTINTOS
O conceito psicanalítico de sexualidade levou a muita confusão
e discussão. A quantidade sexual de uma experiência não é
adequadamente definida pelo conteúdo da experiência, nem pela zona
corporal (zona erotogênica). Para um adolescente, olhar as ilustrações
dos livros médicos pode ser uma experiência sexual. Para o estudante
de medicina, não o é. Nem tampouco podemos definir o conceito psicológico
de sexualidade por referencia a substâncias bioquímicas específicas
(por exemplo, hormônios). Se o bioquímico
pudesse demonstrar, por exemplo, que a superprodução de
certos hormônios sexuais contribui para o crescimento de certos
tumores malignos, isso não implicaria necessariamente em que esses
tumores fossem o resultado dos desejos sexuais pré-conscientes ou
inconscientes do paciente. Mas o psicólogo pode tirar seus indícios
de tais descobertas bioquímicas. Por exemplo, se os hormônios que
habitualmente estão envolvidos na gravidez vierem a ser descobertos
na etiologia do câncer, nossa pesquisa psicológica pode voltar-se
para a personalidade pré-consciente para indagar se tais pessoas têm
desejos insatisfeitos crônicos de gravidez. Mas a prova psicológica
final para a existência factual de semelhantes desejos deverá ser a
sua descoberta empática e introspectiva. E claro que se aplicam
considerações semelhantes, mutatis mutandis, aos indícios
que o bioquímico pode retirar da psicologia profunda.
Os analistas não têm insistido bastante em que a qualidade
sexual de uma experiência não pode ser mais definida. E verdade que
os analistas compreendem que quando dizemos “sexuais”, queremos
dizer algo que é muito amplo do que a sexualidade genital de que a
experiência sexual pré-genital inclui processos sexuais do
pensamento, a locomoção sexual, etc. Ainda mais, é instrutivo
considerar as observações meio-sérias, meio-jocosas de Freud
(1916-1917) acerca da equação “sexual e o que é impróprio”
(p.303) e a observação novamente brincalhona de que “de fato, no
todo, quando pensamos nisso, não chegamos a ficar embaraçados quanto
ao que as pessoas chamam de sexual” (p.304). A experiência sexual
pré-genital da infância e a experiência sexual do adulto (seja nos
jogos prévios, nas perversões ou no coito) têm assim em comum uma
qualidade que não pode ser mais definida e que sabemos ser sexual,
seja pela experiência direta, seja depois de prolongada e persistente
introspecção e remoção dos obstáculos internos à introspecção
(análise das resistências).
E podemos, portanto, dizer que para o bebê e para a criança,
uma grande quantidade de experiências tem a qualidade que os adultos
conhecem bem em sua vida sexual; assim, nossa vida sexual nos provê
de um remanescente de uma experiência que era, no início do nosso
desenvolvimento psicológico, muito mais difundido. De acordo com
Freud (1921, p.91), o termo foi escolhido “a potiori”, isto é, da
mais bem conhecida, dessas experiências em outras palavras
um nome que vai da maneira mais indiscutível, evocar em nós a
espécie exata de significação. Não haveria tantos motivos para
insistir no termo “sexual” se sua significação fosse biológica.
A atitude de Freud de recusar-se a abandona-lo foi a única maneira de
salvaguardar a essência de sua significação psicológica. Termos
como “força vital” e “energia vital” não conduzem a um
reconhecimento inconfundível de uma modalidade primária rejeitada de
experiência.
De maneira análoga, muita coisa fica esclarecida se admitimos
que o termo psicanalítico “instinto” é derivado da investigação
introspectiva da experiência interna. As experiências podem ter as
qualidades de instintividade em diversos graus (de querer, de desejar
ou de empenhar-se). Então, um instinto é uma abstração de inumeráveis
experiências internas; indica uma qualidade psicológica cuja análise
não pode ser levada adiante pela introspecção; é o denominador
comum dos impulsos sexuais e agressivos.
As hipóteses de Freud acerca do narcisismo primário e do
masoquismo primário também estão dentro da estrutura teórica da
psicologia introspectiva. Ele observou os fatos clínicos do
narcisismo e do masoquismo e postulou que constituíam a revivescência
de formas precoces (teóricas) de experiências (potenciais) sexuais e
agressivas às quais as formas posteriores (narcisismo clínico,
masoquismo clínico) retornaram em resposta às tensões ambientais.
Mas a suposição de um
instinto de vida e de um instinto de morte, paralelamente à teoria do
narcisismo primário e do masoquismo primário, constitui um tipo
inteiramente diferente de formação de teoria. Os conceitos de Eros e
Thanatos não pertencem à teoria psicológica baseada nos métodos de
observação de introspecção e empatia, mas a uma teoria biológica
que deve estar assentada em outros métodos de observação. É claro
que o biólogo é livre para tomar quaisquer indícios úteis que
possa encontrar em psicologia; nas suas teorias devem basear-se na
observação biológica e na evidência biológica (Hartman et al.,
1949). Por outro lado, a aplicação dos métodos da psicologia
introspectiva a toda matéria animada, como por exemplo, em alguns
tipos de biologia teleológica, não é cientifica.
Assim, se podemos admirar a audácia da especulação biológica de
Freud, temos que reconhecer que os conceitos de Eros e Thanatos estão
fora da estrutura da psicologia psicanalítica.
Freud habitualmente evitava deixar-se levar pela especulação
biológica quando não podia confirma-la pelos achados da observação
introspectiva psicanalítica. Um exemplo deste empirismo está contido
em seus artigos sobre a sexualidade feminina. Muita coisa tem sido
dita acerca de um suposto
preconceito anti-feminino de Freud, conforme evidenciado em sua insistência
na importância dos impulsos fálicos no desenvolvimento da
sexualidade feminina. A verdade biológica evidente parece ser de que
a mulher dever ter tendências femininas primárias e que não é
aceitável que a feminilidade seja explicada como uma retirada de uma
masculinidade frustrada. Não é provável que a opinião de Freud
fosse devida a uma visão escotomizada que limitasse seus poderes de
observação. É muito mais provável que eles se recusasse a mudar
seus pontos de vista acerca da sexualidade feminina em função de sua
confiança na evidência clínica que estava então aberta para ele
– através da observação psicanalítica
e assim não quisesse aceitar como fato psicológico uma
especulação biológica plausível. Penetrando além das atitudes e
sentimentos femininos de suas pacientes, ele regularmente encontrava o
conflito sobre os impulsos fálicos e embora aceitasse a
bissexualidade biológica, recusava o postulado de uma fase psicológica
anterior da feminilidade sem ter evidência psicológica disso.
A atitude de Freud a propósito do desenvolvimento da
sexualidade feminina é um dos muitos exemplos de sua fiel adesão ao
método introspectivo e empático de observação. No entanto, é
preciso admitir que, apesar de sua habitual lealdade ao método
psicanalítico de observação, Freud preferiu não se manifestar
quanto a alguns de seus conceitos e mantê-los numa terra de ninguém
entre a biologia e a psicologia. Mas uma semelhante região fronteiriça
deixa de existir, uma vez que se tome a posição operacional. Visto
deste ângulo, considerar o ponto de vista dinâmico com seu conceito
de instinto como sendo hormonal ou bioquímico (isto é, biológico do
ponto de vista operacional) é quase a mesma coisa que pensar no
conceito de superego do ponto de vista estrutural como sendo anatômico.
O
LIVRE ARBÍTRIO E OS LIMITES DA INTROSPECÇÃO
A psicologia, e especialmente a psicanálise, (Knight, 1946;
Lipton, 1955) têm sido ultimamente confrontadas com uma nova edição
de um paradoxo que sob diversas formas empestou durante muito tempo a
teologia, a filosofia e a jurisprudência: como a nossa faculdade de
fazer uma escolha ou de chegar a uma decisão é compatível com a lei
do determinismo psíquico? A primeira vista, parece que a psicanálise
dá peso ao argumento contrário à existência livre arbítrio ao
mostrar (1º) como somos conduzidos por forças irracionais que apenas
conseguimos racionalizar; e (2º) que tendemos a fazer uma
supervalorização narcísica de nossas funções psíquicas e, por
isso, abrigamos um sentimento megalomaniacamente iludido de liberdade
a propósito de nossas queridas atividades mentais superiores. Mas o
exame mais detido mostra a atitude psicanalítica a propósito da
existência da escolha e da decisão não é simples nem isenta de
divergências. A posição contraditória do próprio Freud talvez
seja mais bem descrita pela afirmação de que nas entrelinhas e como
uma opinião pessoa endossou a convicção de que havia uma área
de liberdade, escolha e decisão na psicologia humana. Mas que,
por outro lado, durante muito tempo ele relutou intensamente quanto a
incorporar de maneira direta esta convicção à estrutura teórica de
sua ciência. É característico desta irresolução que sua famosa e
freqüentemente citada afirmação acerca do objetivo da psicoterapia
psicanalítica esteja relegada a uma nota de rodapé. Ele diz em
“Ego e o Id” (Freud, 1923) que a psicanálise se dispõe a “dar
ao ego do paciente liberdade para escolher um caminho ou
outro” (p.50; o itálico é de Freud). As formulações teóricas
mais primitivas de Freud estavam orientadas em direção ao
determinismo psíquico absoluto e parece não haver lugar para uma
“liberdade do ego... para decidir” em seu sistema teórico mais
antigo. Servem como ilustrações deste ponto de vista: (a) o conceito
de Ichitriebe (impulsos do ego, instintos do ego); (b) a afirmação
de que o ego se desenvolve a partir do id; e (c) a afirmação de que
o principio da realidade é apenas um principio do prazer modificado.
Mas as formulações teóricas posteriores de Freud começaram a
incorporar, reconhecidamente apenas de maneira implícita na maioria
dos casos, mas um pouco de espírito de suas convicções iniciais a
propósito de alguma liberdade ou independência do ego. A ênfase
sobre o ego como estrutura psíquica e algumas observações acerca da
gênese independente do ego em “Analise Terminável e Interminável”
(Freud, 1937) em adiantamento à afirmação contida em “O ego e o
Id” são exemplos desta ligeira modificação em sua visão teórica.
Esta afirmação pode ser vista como antecipando aquilo que designamos
agora de autonomia do ego, desde Hartmann (1939).
Talvez uma parte da confusão possa ser reduzida se novamente
abordarmos o problema definindo claramente o método de observação
pelo qual obtemos a matéria-prima para nossas abstrações teóricas.
Para uma ciência que obtém o seu material de observação através
da introspecção e da empatia, a pergunta pode ser formulada da
seguinte maneira: Podemos observar em nós mesmos a capacidade de
escolher e decidir? Será que a continuação da introspecção
(analise das resistências) conseguiria dissecar essa capacidade até
seus componentes subjacentes? As configurações psicológicas contrárias,
a saber, a experiência de ser compelido e a experiência da indecisão
e da dúvida (por exemplo obsessiva), habitualmente podem ser
decompostas por meio da introspecção.
À medida que conseguimos reduzir estes fenômenos pelo método
psicanalítico determinando seus motivos, estamos simultaneamente
caminhando na direção do restabelecimento da escolha e da decisão
livres. Será que podemos fazer o
mesmo com a capacidade de escolha introspectivamente observada?
Será que podemos, pela introspecção, decompor a experiência
de fazer uma escolha em componentes de compulsão e narcisismo?
A resposta a esta pergunta é não, apesar da ênfase que a
psicanálise põe na motivação inconsciente e na racionalização
pois, sob condições favoráveis, o máximo que se conseguiu através
da persistente recuperação de motivações inconscientes e de
racionalizações foi uma experiência de liberdade cada vez mais
ampla e mais vivida.
Cada ramo da ciência tem seus limites naturais determinados
aproximadamente pelos limites do seu instrumento básico de observação.
O cientista físico admite que toda a teoria tem que começar com
certos fatos inexplicáveis que estão além da causalidade, por
exemplo, a existência da energia no universo. Estas variáveis
inexplicáveis (os elementos, o calor, a eletricidade, etc.) podem ser
substituídos e seu número pode ser reduzido à medida que as ciências
físicas se modificam ou progridem. Mas a redução a um único
elemento não parece útil a uma ciência que tem que levar em conta
a variedade dos fenômenos naturais. Assim, cada ciência chega
a um pequeno número ideal de conceitos básicos. Os limites da psicanálise
são ditados pelos limites da introspecção e da empatia potenciais.
Dentro do campo observado reina a lei do determinismo psíquico que
compreende a suposição de que a introspecção, sob a forma de livre
associação e análise das resistências, é potencialmente capaz de
revelar motivações para nossos desejos, decisões, escolhas e atos.
Mas a ciência introspectiva tem que reconhecer os limites além dos
quais o seu instrumento de observação não alcança e tem que
aceitar à sua disposição. Podemos reconhecer desejos e outras forças
impulsionadoras internas e podemos expressar este fato da observação
que não pode ser mais reduzido introspectivamente, pelo termo
“instinto” ou como instinto sexual agressivo. E podemos observar,
por outro lado, a experiência de um “eu” ativo: seja dissociado
do instinto (na auto-observação) ou fundindo com o instinto não-descarregado
(como a experiência de um
desejo) ou mesclado em modalidades de descarga motora (como ação).
Aquilo que experimentamos como liberdade de escolha, como liberdade de
decisão e congêneres, é uma expressão do fato de que a experiência
do eu e um núcleo de atividade que emanam e daí não podem, no
momento presente, ser divididos em componentes pelo método
introspectivo. Portanto, estão além da lei de motivação, isto é,
além da lei do determinismo psíquico.
– Freud (1915c, p. 169)
expressou idéias semelhantes.
– Freud (1910b)
estabeleceu um contraste entre perturbações neuróticas e
perturbações psicogênicas, o que equivale a dizer sintomas
psiconeuróticos.
[5]
– A experiência
introspectiva das lutas com o objeto marginal nas psicoses e nos
estados fronteiriços não é a mesma coisa do que a observação
de relações interpessoais. É instrutivo estudar as conseqüências
de uma combinação destas duas abordagens teóricas realizada por
exemplo, pelo em emprego de um conceito de ligação como o do
“observador participante”, no qual a distinção proveitosa
entre o conceito estrutural de uma transferência objetal nas
neuroses e o objeto interpessoal arcaico nas perturbações narcísicas
desaparece. O resultado é o aparecimento de uma concepção lógica
e internamente consistente da psicopatologia na qual, entretanto,
os mais diversos fenômenos clínicos podem ser vistos como
variedades ou graus de esquizofrenia (Sullivan, 1940 p. 5 –
“Conceptions of Modern Psychiatry”).
– Considerações
paralelas a estas elaboradas para a sexualidade, também se
aplicam à outra continuidade de experiência observada por
introspecção, isto é, hostilidade-agressão.
BASTIDORES
PSICANÁLISE
EM CHICAGO: UM POUCO DA SUA HISTÓRIA.
A
psicanálise há muito tempo faz parte da rica e muitas vezes
inovadora vida cultural de Chicago. Na cidade que deu ao mundo a
arquitetura moderna, para não mencionar suas muitas outras contribuições
para as ciências naturais, as ciências sociais e as artes, não são
de admirar que tenha sido o radical jovem presidente da Universidade
de Chicago, Robert Maynard Hutchins quem, em 1930, convidou Franz
Alexander, de Berlim, a se tornar o primeiro professor de psicanálise
na nova escola de medicina daquela Instituição. Com 30 anos de
idade, Hutchins tinha acabado de se tornar chanceler no ano anterior e
a faculdade de medicina começara em 1927, com a então revolucionária
inovação de uma congregação de tempo integral. Infelizmente, a
hostilidade dirigida contra a escola pela comunidade médica de
Chicago – a Sociedade Médica local colocou numa lista negra todos
os médicos da congregação – foi ainda mais forte na atitude da própria
escola contra Alexander e às idéias psicanalíticas trazidas por
ele. Cada afirmação de Alexander era desafiada e ele terminou sendo
acusado de inadequação ética. Após um único ano de total
perplexidade, ele abandonou a Universidade e preparou a formação da
Sociedade Psicanalítica de Chicago, em junho de 1931.
Entre
os 12 membros fundadores estavam Leo Bartemeier, Lionel Blizsten,
Thomas French, Helen Mclean e Karl Menninger.
Nos
anos 40 Alexander formulou algumas noções muito controvertidas. Não
gostando da “dependência” que a análise parecia promover, ele
encurtou o prazo do tratamento e o tornou menos intenso. Atendendo
pacientes 3 vezes por semana em vez de 4 ou 5, manipulou suas atitudes
de modo a atuar ao contrário das figuras do passado do paciente.
Chamou essas manipulações de “experiências emocionais
corretivas”, dando assim um mau nome para um bom conceito. Essas
experiências iconoclásticas despertaram a ira do “establishment”
psicanalítico da costa Leste, mas também encontraram resistências
crescentes locais.
Um
grupo de analistas que tinha sido analisado por Blitzsten, liderado
por Maxwell Gitelson e Joan Fleming, ao qual aderiu Heinz Kohut,
conduziu a uma espécie de golpe de estado e, em 1956, Alexander foi
para o exílio em Los Angeles.
QUEM
ERAM ESSAS PESSOAS?
LIONEL
BLITZSTEN
Buscou
fazer análise com Freud em Viena, que o teria rejeitado porque teria
chegado atrasado 15 minutos para a entrevista, apesar de sua desculpa
de que o táxi enguiçara. Depois, procurou Alexander em Berlim, onde
freqüentou alguns cursos no Instituto. Segundo Orr, Blitzsten “foi
para a Europa no início dos anos 20; após alguns anos formou-se no
Instituto de Berlim e voltou a Chicago em 1925 como psicanalista”.
Passou a dominar a psicanálise em Chicago. Foi o primeiro presidente
da Sociedade Psicanalítica de Chicago e um ano depois passou a
ensinar no Instituto de Psicanálise, dirigido por Franz Alexander,
mas logo divergiu de seu diretor.
Em
27 de janeiro de 1976, numa reunião da Sociedade Psicanalítica de
Chicago, uma tentativa de definir as contribuições teóricas de
Blitzsten, em particular no território dos problemas narcísicos,
despertou intensas paixões facciosas, remanescentes dos ácidos
combates que tiveram lugar nos primeiros tempos da Sociedade, entre os
aliados de Blitzsten e os membros do Instituto. Uma observação útil
foi feita por Heinz Kohut que sentia que Blitzsten não tinha muita
capacidade de conceituação e era essencialmente um “homem de ação”
– impaciente. Ele o contrastou com Alexander, a quem considerava um
conceituador muito cuidadoso; e no entanto este parecia incapaz de
focalizar questões humanas significativas, algo que aquele fazia
facilmente. Estivesse Kohut certo ou não em sua avaliação, o
psicanalista naturalmente vai desconfiar de transferência mal
resolvida na qual o violento debate público envolve analista e
analisando, como era o caso de Blitzsten e Alexander. Mais tarde,
Maxwell Gitelson que tinha feito análise com os dois, parece ter
tomado o partido de Blitzsten. Alexander vai-se embora de Chicago em
1956.
HELEN
McLEAN
Possuía
interesses diversificados. Estou na China junto com seu marido. Estava
interessada nas diferenças culturais e nas relações raciais, bem
como na análise psicológica da grande literatura, com ênfase
especial nos gregos antigos. Uma de suas últimas publicações era
sobre educação médica na África.
Teve
um papel importante na cena psicanalítica de Chicago. Era uma das três
mulheres a participar do corpo docente do Instituto, juntamente com
Margaret Gerard e Catherine Bacon. Aposenta-se ao final dos anos 60.
PORQUE
MENCIONAR TUDO ISSO?
Para
terem uma compreensão da importância do trabalho “Introspecção,
Empatia e Psicanálise. Um Estudo da Relação entre Método de
Observação e Teoria”. Este “paper” foi solicitado a um Kohut
com 44 anos de idade (1913), sete anos após ter completado sua formação
no Instituto de Chicago.
Preparou-se.
Fez um breve resumo apresentado no 20º Congresso da I.P.A. presidido
por Hartmann, em Paris na “Maison de La Chimie”. O trabalho passou
desapercebido. Apresenta-o, em novembro de 1957, na Sociedade de
Chicago tendo uma mesa composta por FRANZ ALEXANDER, MAXWELL GITELSON,
LOEWENSTEIN e HELEN McLEAN.
Sabemos
que Franz Alexander
se notabilizou por buscar fazer uma ligação entre a psicanálise
e a biologia, através da aplicação do método psicanalítico para
explicar síndromes médicas. Conseqüentemente, utilizava os
conceitos de instintos e pulsões. REAÇÃO: GROSSEIRA, quase chegando
a manifestações físicas de desaprovação – “quase ofensivo nos
seus comentários”.
Maxwell Gitelson. POSIÇÃO
MÉDIA.
Loewenstein.
Conhecido em New York por fazer parte de um trio, junto com Hartmann e
Kris defensores da “Psicologia do Ego” – uma teoria da
adaptabilidade do ego. Uma abordagem muito próxima do cultural e do
social. REAÇÃO: CRÍTICA SEVERA, porém RESPEITUOSA.
Helen
McLean.
REAÇÂO: “CALOROSA ACEITAÇÃO E ORGULHO”.
PORQUE
DESTAS REAÇÕES ?
1.
Kohut fez uma crítica ao modelo da psicanálise praticada,
porque entendeu estar entrando pela BIOLOGIA e o SOCIAL. Portanto, se
opondo ao pensamento psicanalítico da época.
- Kohut ficou com a impressão que não entenderam a sua proposta,
que era a de “UM ESTUDO DA RELAÇÃO ENTRE MÉTODO DE OBSERVAÇÃO
E TEORIA”.
- A VIRADA PARA A PSICOLOGIA DO SELF
Prenderam-se
ao termo EMPATIA, que já era e continuou sendo hoje um termo muito
conotado afetivamente. A Empatia é, freqüentemente, confundida com
SIMPATIA, com CALOR HUMANO. Isto transposto para o “setting”
psicanalítico, era como se fosse uma ATITUDE ATIVA DE BENEFICIAMENTO
ou de FAVORECIMENTO da presença do analisando pelo analista. Isto foi
considerado na época, um desvio da técnica, uma PSICOTERAPEUTIZAÇÃO
DO “SETTING” PSICANALÍTICO.
Daí,
em diante Kohut passou os 25 anos mais produtivos da sua vida até 4
dias antes de morrer (diante das câmeras de TV na Universidade de
Berkely) falando alegremente sobre INTROSPECÇÃO e EMPATIA.
- IMPORTÂNCIA DO TRABALHO
Explicitação
de uma METODOLOGIA que irá acompanhar Kohut o tempo todo por uma
PSICANÁLISE PSICOLÓGICA separada da Biologia e do Social. Com isto,
quero dizer que separado é separar o que é PSICOLÓGICO
do que pode ser chamado de fenômeno BEHAVORISTA, SOCIAL ou PSICOSSOMÁTICO.
COMO
SE FAZ ENTÃO UMA PSICANÁLISE PSICOLÓGICA ?
1. PELA DELIMITAÇÃO
DO CAMPO PSICOLÓGICO
- O campo psicológico é só aquele que pode ser observado
FUNDAMENTALMENTE pela INTRONSPECÇÃO e EMPATIA ou INSTROSPECÇÃO
VICARIANTE. COLOCAR-SE NO LUGAR DO OUTRO e procurar
decodificar um significado do discurso do Outro, DESDE O LUGAR DA
EXPERIÊNCIA EXISTENCIAL DO OUTRO.
- NÃO É UMA LEITURA METAPSICOLÓGICA DO DISCURSO, na qual se está
buscando onde está a resistência, o mecanismo de defesa, o
impulso – procurando o que a Metapsicologia indica.
- A proposta kohutiana é da Introspecção em si mesmo e da Empatia
com o Outro, visando recolher dados da experiência do Outro.
Conseqüentemente, é MÉTODO DE CAPTAÇÃO DE DADOS. Com o passar
do tempo, isto veio a se chamar uma LEITURA HERMENENÊUTICA DO
MATERIAL PSICANALÍTICO (Hermenêutica é uma Ciência que se
ocupa em decodificar textos sagrados, literários ou interpretação
do sentido das palavras ou das leis).
- INTERPRETAÇÃO DO TEXTO A PARTIR DO PRÓPRIO AUTOR, o enunciador
do discurso.
- MÉTODO DIFERENTE. Portanto, uma revisão dos conceitos psicanalíticos
como o de IDENTIDADE, porque não pode ser obtido por introspecção
e empatia, o que seria uma abstração teórica – é um conceito
da Psicologia Social.
- MÉTODO DE COLETA DADOS, baseado na DIALÉTICA EXPERIENCIAL DE
ACERTO-ERRO. É um método accessível a qualquer pessoa, que se
disponha a se exercitar. Incluindo sensíveis e intuitivos.
- É treinar OUVIR. Fazer uma suposta tradução do
discurso do Outro. Apresentar esta tradução e verificar como ela
é recebida. Então, dando VALIDADE À RESPOSTA neste interjogo e
aí dizer: “Eu acho que foi isso”. O enunciador do discurso
concorda ou discorda.
- NÃO ENVOLVE UM
TALENTO ESPECIAL DO PSICANALISTA EM REVELAR VERDADES AO PACIENTE.
- É MÃO-DE-OBRA PURA E SIMPLES, SEM INTUIÇÃO EXTRAORDINÁRIA.
Imersão prolongada no discurso do paciente, imersão prolongada
na sua própria introspecção e tentativa no ensaio de buscar
acertos e erros.
- O conceito é isento de qualquer conotação moral, ética,
sugestiva, afetiva e emocional. Porque empatia tanto serve a favor
ou contra alguém.
- MÉTODO. Não é proposta afetiva, mas que pelos resultados cria um
clima integrativo.
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